Boris Vian

França
10 Mar 1920 // 23 Jun 1959
Escritor/Poeta/Cantor/Músico

Má Memória

Copla 1

A cabeça é um órgão curioso
Curiosamente organizado
Basta ver quando nos fazem uma trepanação
Geralmente não é muito fácil
Eis a história singular
De um certo Mathurin Lafieur
Cujo crânio bastante comum
Só era bizarro no interior
Este tipo sofria desde a infância
De um mal na verdade vulgar
De uma memória tão infiel
Que causava embaraços
Assim que aprendia uma coisa
Em família ou no liceu
Mathurin de expressão tristonha
Imediatamente a esquecia
                                                         Mas...

Refrão 1

Em breve se esqueceu de esquecer
O que devia esquecer
Então como se tinha
Esquecido de esquecer
De tudo se recordava
                                                      (Falado) Estão a perceber

Copla 2

Esta faculdade tão rápida
Em lugar de na sociedade
O fazer considerar estúpido
Dava-lhe a prioridade
Esquecendo-se de esquecer as aulas
Mathurin sabia-as de cor
E apesar do cérebro atravancado
Chegou sem custo a agregado
Mas um dia em que chovia um horror
E que ele ia a correr para o metro
Esbarrou num outro corredor
E estatelou-se como um perdigoto
O crânio bateu na pedra
Com um belo ruído musical
Produzindo-lhe na cafeteira
Uma reviravolta fatal
                                                         E desde então

Refrão 2

Esquecia-se de esquecer de esquecer
O que tinha de esquecer
E como se esquecia
De se esquecer de esquecer
Nunca se lembrava de nada
                                                      (Falado) Estão a perceber

Copla 3

Esvaziado pelo estúpido acidente
Das suas memórias de sempre
Partiu prà Praça das Festas
Ele que morava em Cherbourg
Mas no caminho azar infame
Um autocarro desarvorado
Sem contemplação pla sua alma
Diante de Mathurin desembocou
Tendo esquecido a existência
Dos autocarros e do perigo
O nosso herói flor de inocência
Entregou-se ao monstro raivoso
Sucumbindo às rodas carniceiras
No seu crânio houve o sentimento
De uma distorção estranha
Antes de conhecer o esquecimento
                                                               E
Esqueceu-se de se esquecer de esquecer
De esquecer que devia esquecer
O que se esquecia de esquecer de esquecer
Que acabava de recordar
                                                       (Paragem) Esqueci-me do fim...

Boris Vian, in "Canções e Poemas"
Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martins
// Consultar versos e eventuais rimas




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