John Donne

Inglaterra
22 Jan 1572 // 31 Mar 1631
Clérigo/Poeta/Prosador

O Sonho

Amor querido, por nada menos que tu
Teria eu interrompido este sonho feliz:
          Era um tema
Para a razão, demasiado forte para fantasia.
Portanto, sabiamente, me acordaste; porém
O meu sonho não terminou, continuou contigo.
És tão verdadeira que bastam os pensamentos de ti
Para tornar sonhos realidade, fábulas em história.
Vem a meus braços, pois se pensaste ser melhor
Que não sonhasse todo o meu sonho, concretizemos o resto.

Como o relâmpago, ou a luz da vela,
Teus olhos, e não o teu ruído, me acordaram;
          Porém pensei que eras
(Tu que amas a verdade) um Anjo — à primeira vista.
Mas quando vi que vias o meu coração
E os meus pensamentos, para além da arte do anjo,
Como sabias do meu sonho, como sabias quando
O excesso de gozo me acordaria, e então vieste,
Devo confessar que no mínimo, seria
Ultrajante, pensar-te outra coisa que não tu.

Vindo e ficando mostrou-me que tu és tu.
Mas o levantares-te faz-me duvidar, e temo agora
          Que tu já não sejas tu.
E fraco o amor quando o medo é tão forte como ele;
Não é todo espírito puro e corajoso
Se mistura tem de medo, vergonha, ou honra.
Talvez como os fachos que, já preparados,
Os homens acendem e apagam, me trates tu:
Vieste para inflamar, partiste para voltar. Então
Sonharei esse desejo outra vez, senão desfaleceria.

John Donne, in "Poemas Eróticos"
Tradução de Helena Barbas
// Consultar versos e eventuais rimas




Facebook

.
© Copyright 2003-2017 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE