Joaquim Maria Machado de Assis

Brasil
21 Jun 1839 // 29 Set 1908
Escritor

Os Arlequins - Sátira

          Musa, depõe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
          Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
          Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
          Musa, toma a vergasta,
          E os arlequins fustiga!

          Como aos olhos de Roma,
— Cadáver do que foi, pávido império
          De Caio e de Tibério, —
O filho de Agripina ousado assoma;
          E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
          Pedia, ameaçando,
          O aplauso acostumado;

          E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
          De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
          E tu, tu não te abrias,
Ó céu de Roma, à cena degradante!
          E tu, tu não caías,
          Ó raio chamejante!

          Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
          O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia populaça;
          Não busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
          Não encanta o ouvido,
          Fascina a consciência!

          Vede; o aspecto vistoso,
O olhar seguro, altivo e penetrante,
          E certo ar arrogante
Que impõe com aparências de assombroso;
          Não vacila, não tomba,
Caminha sobre a corda firme e alerta:
          Tem consigo a maromba
          E a ovação é certa.

          Tamanha gentileza,
Tal segurança, ostentação tão grande,
          A multidão expande
Com ares de legítima grandeza.
          O gosto pervertido
Acha o sublime neste abatimento,
          E dá-lhe agradecido
          O louro e o monumento.

          Do saber, da virtude,
Logra fazer, em prêmio dos trabalhos,
          Um manto de retalhos
Que a consciência universal ilude.
          Não cora, não se peja
Do papel, nem da máscara indecente,
          E ainda inspira inveja
          Esta glória insolente!

          Não são contrastes novos;
Já vem de longe; e de remotos dias
          Tornam em cinzas frias
O amor da pátria e as ilusões dos povos.
          Torpe ambição sem peias
De mocidade em mocidade corre,
          E o culto das idéias
          Treme, convulsa e morre.

          Que sonho apetecido
Leva o ânimo vil a tais empresas?
          O sonho das baixezas:
Um fumo que se esvai e um vão ruído;
          Uma sombra ilusória
Que a turba adora ignorante e rude;
          E a esta infausta glória
          Imola-se a virtude.

          A tão estranha liça
Chega a hora por fim do encerramento,
          E lá soa o momento
Em que reluz a espada da justiça.
          Então, musa da história,
Abres o grande livro, e sem detença
          À envilecida glória
          Fulminas a sentença.

Machado de Assis, in 'Crisálidas'
// Consultar versos e eventuais rimas




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