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Poema
António Nobre António Nobre Portugal
1867 // 1900 Poeta
  
  
Os Figos Pretos - Verdes figueiras soluçantes nos caminhos!
Vós sois odiadas desde os seculos avós:
Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

    - Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras
       Deixae-o fallar!
    Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
       Que bom que é amar!

- O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

    - Quando eu for defunta para os esqueletos,
       Ponde uma ao meu lado:
    Tristinha, chorando, darà figos pretos...
       De luto pezado!

- Os aldeões para evitar vosso perfume
Sua respiração suspendem, ao passar...
Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume,
Os carpinteiros não vos querem aplainar.

    - Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
       Que incensa o Senhor!
    Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
       Para o meu amor...

- As outras arvores não são vossas amigas...
Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes,
Com essas folhas, sois como velhas mendigas
N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

    - Mendigas de estrada! mendigas de estrada!
       E cheias de figos!
    Os ricos là passam e não vos dao nada,
       Vos daes aos mendigos...

- Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!
O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.
Ninguem te quer: tua madeira é unicamente
Utilizada para as forcas, onde as ha...

    - Que màs creaturas! que injustas sois todas
       Que injustas que sois!
    Serà de figueira meu leito da bodas...
       E os berços, depois

- Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle,
Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!...
Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle
Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

    - Tambem era negro, de negro cegava
       O pranto, o rosario,
    Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,
       Alguem, no Calvario...

- E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua,
Se os figos caem de maduros, pelo chão:
Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua,
A chorar, a chorar sua alta traição!

    - Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras
       Deixae-o fallar!
    Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras
       Cantar e bailar...

António Nobre, in 'Só'

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