António Nobre

Portugal
16 Ago 1867 // 18 Mar 1900
Poeta

Os Sinos

1

Os sinos tocam a noivado,
    No Ar lavado!
Os sinos tocam, no Ar lavado,
    A noivado!

Que linda criança que assoma na rua!
    Que linda, a andar!
Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
    Que vem a andar...

Tambem, algum dia, o povo na rua,
    Quando eu cazar,
Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
    Que vae cazar...

2

E o sino toca a baptizado
    Que lindo fado?
E o sino toca um lindo fado,
    A baptizado!

E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o lavar,
E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o sujar.

Ó boa madrinha, que o enxugas de leve,
Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais:
Antes o enxugue a Velha! antes Deus t'o leve!
    Não soffre mais...

3

Os sinos dobram por anjinho,
    Coitadinho!
Os sinos dobram, coitadinho...
    Pelo anjinho!

Que aceiada que vae p'ra cova!
    Olhae! olhae!
Sapatinhos de sola nova,
    Olhae! olhae!

Ó lindos sapatos de solinha nova,
    Bailae! bailae!
Nas eiras que rodam debaixo da cova...
    Bailae! bailae!

4

O sino toca p'ra novena,
    Gratiae plena,
E o sino toca, gratiae plena,
    P'ra novena.

Ide, meninas, á ladainha,
    Ide rezar!
Pensae nas almas como a minha...
    Ide rezar!

Se, um dia, me deres alguma filhinha,
Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem:
Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha,
    Com sua mãe...

5

E o sino chama ao Senhor-fóra,
    A esta hora!
Os sinos clamam, a esta hora,
    Ao Senhor-fóra!

Accendei, vizinhos, as velas,
    Allumiae!
Velas de cera nas janellas!
    Allumiae!

E luas e estrellas tambem poem velas,
    A allumiar!
E a alminha, a esta hora, já está entre ellas,
    A allumiar...

6

E os sinos dobram a defuntos,
    Todos juntos!
E os sinos dobram, todos juntos,
    A defuntos!

Que triste ver amortalhados!
    Senhor! Senhor!
Que triste ver olhos fechados!
    Senhor! Senhor!

Que pena me fazem os amortalhados,
Vestidos de preto, deitados de costas...
E de olhos fechados! e de olhos fechados!
    E de mãos postas!

E os sinos dobram a defuntos,
    Dlin! dlang! dling! dlong!
E os sinos dobram, todos juntos,
    Dlong! dlin! dling! dlong

António Nobre, in 'Só'
// Consultar versos e eventuais rimas




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