Pedro Chagas Freitas

Portugal
n. 25 Set 1979
Escritor

Pronto para Receber a Felicidade

Estava tudo pronto para receber a felicidade,
e tu não vinhas.

Amei-te muito antes de te amar. Éramos o que
os amantes eram e nem precisávamos de
corpo para isso, porque o que dizíamos nos
satisfazia, e sempre que a vida acontecia era um
ao outro que tínhamos de falar. Se há coisa que
temo no mundo é o teu fim. Passo horas a sentir-me
indestrutível, a ter a certeza de que nada me
toca, de que nada me poderá doer o suficiente para
me fazer recuar, e depois vens tu. Tu e a tua imagem
a perder de vista, os teus olhos quando me olhas, a
tua boca quando me falas, e é então que percebo
que sou finito, pobre humano, e desato a chorar à
procura do telefone e de uma palavra tua que
me convença de que ainda existes. É na possibilidade
do teu fim que encontro a humildade.

Era o dia mais lindo de sempre na terra onde eu estava,
e tu não vinhas.

Não se sabe onde acaba o mundo mas eu sei que
a vida acaba no fundo dos teus lábios. Tinha as
palavras preparadas para te dizer que havia mais do
que tudo a precisar que fizéssemos aos corpos o que
tudo o resto em nós já fizera. Depois iria dizer-te que
desde que te olhara que já sabia a que sabia o teu beijo
e que era tempo de as bocas o saberem também. De
seguida iria lentamente despir-te a língua sem que
notasses que à volta nem os relógios ousavam mexer
para não perturbarem o movimento da Terra. Por fim
tu dirias que era previsível que acabássemos assim e
que a única surpresa era que tenhamos acabado assim,
apenas para comprovar que de entre todas as coisas
completamente imprevisíveis o amor é a mais previsível
de todas. Acabariam aí todas as palavras desse dia e dessa
noite, ou então dessa noite e desse dia, e lá fora já não
saberíamos se estaria luz ou sombra, sol ou chuva, pois
seria certo que os olhos têm muitas capacidades
(beijar, abraçar, tocar, lamber, sugar, agarrar, apertar)
quando se ama mas nenhuma delas é ver.

Pela primeira vez na vida limpei o pó atrás dos móveis de casa,
e tu não vinhas.

Já não havia explicação possível para não estares e
eu ainda acreditava que vinhas perfeitamente a
tempo desde que viesses. Tentei telefonar-te mas
não atendeste; tentei chorar por ti mas nem as
lágrimas caíam, e quando o corpo toma decisões à
revelia é porque sabe perfeitamente o que está
a fazer. Foi isso o que me descansou. Resolvi deitar-me
um pouco e dormir. Dormir é sempre a melhor forma
de te esperar, pois se existe algum momento em
que me aproximo de ti é quando me é
permitido sonhar. Quando acordei não estavas e
apeteceu-me gritar. Felizmente não o fiz porque
poderia acordar-te. Estavas a dormir, percebi depois,
na cama ao lado, depois de teres chegado atrasada
na noite anterior e me teres encontrado
já de olhos fechados. Foi então a minha vez
de me deitar sem uma palavra e esperar que
acordasses, ou esperar que adormecesses, porque
no fundo o que interessa é que permaneças. Tinhas
chegado tão atrasada que mais valia não
teres vindo, mas ainda bem que vieste.

Doía-me a vontade toda de te apertar e de te falar,
mas tu já vinhas.

Quando acordares prometo que vamos adormecer
todos os dias
juntos para sempre.

Pedro Chagas Freitas, in 'Prometo Falhar'




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