30 Poemas

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Um Segredo (1)

Meu pai tinha sandálias de vento/ só agora o sei./ Tinha sandálias de vento/ e isto nem sequer é uma maneira de dizer/ andava por longe os olhos fugidos a expressão em/ ...

Tédio (2)

Tenho as recordações d'um velho milenário!/ / Um grande contador, um prodigioso armário,/ Cheiinho, a abarrotar, de cartas memoriais,/ Bilhetinhos de amor, recibos, madrigais,/ Mais segredos não tem ...

Poema da Eterna Presença (3)

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva,/ de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,/ que as dimensões do infinito não me perturbam./ (O infinito!/ Essa incomensurável d...

Em Tudo quanto Olhei Fiquei em Parte (4)

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa/ Se é para nós que cessa. Aquele arbusto/ Fenece, e vai com ele/ Parte da minha vida./ / Em tudo quanto olhei fiquei em parte./ Com tudo quanto vi, se passa,...

Quanto Faças, Supremamente Faze (5)

Quanto faças, supremamente faze./ Mais vale, se a memória é quanto temos,/ Lembrar muito que pouco./ E se o muito no pouco te é possível,/ Mais ampla liberdade de lembrança/ Te tornará teu dono./ / <...

Louvor do Esquecimento (6)

Bom é o esquecimento./ Senão como é que/ O filho deixaria a mãe que o amamentou?/ Que lhe deu a força dos membros e/ O retém para os experimentar./ / Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre/ ...

Poema da Memória (7)

Havia no meu tempo um rio chamado Tejo/ que se estendia ao Sol na linha do horizonte./ Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia/ exactamente um espelho/ porque, do que sabia,/ só um espelho com ...

Vivo em Lembranças, Morro de Esquecido (8)

Doces lembranças da passada glória,/ Que me tirou fortuna roubadora,/ Deixai-me descansar em paz uma hora,/ Que comigo ganhais pouca vitória./ / Impressa tenho na alma larga história/ Deste passado b...

Elegia da Lembrança Impossível (9)

O que não daria eu pela memória/ De uma rua de terra com baixos taipais/ E de um alto ginete enchendo a alba/ (Com o poncho grande e coçado)/ Num dos dias da planície,/ Num dia sem data./ O que não d...

Em Memória de Angélica (10)

Quantas vidas possíveis já descansam/ Nesta bem pobre e diminuta morte,/ Quantas vidas possíveis que outra sorte/ Daria ao esquecimento ou à lembrança!/ Quando eu morrer, morrerá um passado;/ Com est...

Memória (11)

Tudo que sou, no imaginado/ silêncio hostil que me rodeia,/ é o epitáfio de um pecado/ que foi gravado sobre a areia./ / O mar levou toda a lembrança./ Agora sei que me detesto:/ da minha vida de cri...

Memória Consentida (12)

Neste lugar sem tempo nem memória,/ nesta luz absoluta ou absurda,/ ou só escuridão total, relances há/ em que creio, ou se me afigura,/ ter tido, alguma vez, passado/ / com biografia, onde se mistur...

Dúvida (13)

Eu corro atrás da memória/ De certas coisas passadas/ Como de um conto de fadas,/ De uma velha, velha história.../ / Tão longe do que hoje sou/ Que nem sei se quem recorda/ Foi aquele que as passou,/...

O Album (14)

Minha Júlia, um conselho de amigo;/ Deixa em branco este livro gentil:/ Uma só das memórias da vida/ Vale a pena guardar, entre mil./ / E essa n’alma em silêncio gravada/ Pelas mãos do mistério há-de...

Nome Para Uma Casa (15)

Ossos enxutos de repente as mãos/ sobre o repousado peito entrelaçadas/ como quem adormeceu/ à sombra de uma quieta/ e morosa árvore de copa alargada./ Dos olhos direi que abertos/ para dentro me par...

Memória (16)

I/ / Na cristalina, líquida presença,/ crescente lua no abismo enquanto/ o mar se cala, desconheço a margem/ onde me espera no desejo/ esguio do poente a deusa branca.../ / À ínfima visão dum lírio e...

Nocturno (17)

Uma casa navega no tempo/ como um barco subindo o rio/ Por fim sem marinhagem por fim sem mastreação./ Por fim ancorada nas janelas exorbitadas/ onde as luzes são paisagens lunares/ e o silêncio tem ...

Consulta (18)

Chamei em volta do meu frio leito/ As memórias melhores de outra idade,/ Formas vagas, que às noites, com piedade,/ Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito.../ / E disse-lhes: No mundo imenso e e...

Memória Amada (19)

Para Alain Fournier/ / Vinham de longe em bandos. Acorriam/ Jubilosos. Fantasias/ De parques pluviosos/ E, descendo,/ Os patos bravos lançados/ Entre juncos, salgueiros e veados./ Tarde,/ Muito t...

Era a Memória Ardente a Inclinar-se (20)

Era a memória ardente a inclinar-se/ à giesta do tempo por frescura/ mas o que em seu espelho se figura/ vê que está só e a mesma dor foi dar-se/ / noite e dia e silente de amargura/ uma saudade em f...
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