28 Poemas

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Nasceu-te um Filho (1)

Nasceu-te um filho. Não conhecerás,/ jamais, a extrema solidão da vida./ Se a não chegaste a conhecer, se a vida/ ta não mostrou - já não conhecerás/ / a dor terrível de a saber escondida/ até no pur...

O Pai (2)

Terra de semente inculta e bravia,/ terra onde não há esteiros ou caminhos,/ sob o sol minha vida se alonga e estremece./ / Pai, nada podem teus olhos doces,/ como nada puderam as estrelas/ que me ab...

Pai, a Minha Sombra és Tu (3)

a cadeira está vazia, um corpo ausente/ não aquece a madeira que lhe dá forma/ / e não ouço o recado que me quiseste dar/ nem a tua voz forte que grita meninos/ na hora de acordar/ ouço o teu ...

Pai, Dizem-me que Ainda Te Chamo (4)

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante/ o sono - a ausência não te apaga como a bruma/ sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos/ meus sonhos um território suspenso de toda a d...

As Mãos do Meu Pai (5)

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis/ sobre um fundo de manchas já cor de terra/ — como são belas as tuas mãos —/ pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram/ na nobre cólera dos justos....

Um Segredo (6)

Meu pai tinha sandálias de vento/ só agora o sei./ Tinha sandálias de vento/ e isto nem sequer é uma maneira de dizer/ andava por longe os olhos fugidos a expressão em/ ...

Aos Filhos (7)

Já nada nos pertence,/ nem a nossa miséria./ O que vos deixaremos/ a vós o roubaremos./ / Toda a vida estivemos/ sentados sobre a morte,/ sobre a nossa própria morte!/ Agora como morreremos?/ / Estes...

À Minha Filha (8)

Vejo em ti repetida,/ A anos de distância,/ A minha própria vida,/ A minha própria infância./ / É tal a semelhança,/ É tal a identidade,/ Que é só em ti, criança,/ Que entendo a eternidade./ / Todo o...

Sem um Filho te Apagarás no Poente (9)

A luz real ergueu-se a oriente/ com a coroa de fogo na cabeça:/ e o nosso olhar, vassalo obediente,/ ajoelha ante a visão que recomeça./ Enquanto sobe, Sua Majestade,/ a colina do céu a passos de oir...

Sabes, Pai (10)

sabes, pai/ / o cachecol bege nos muros da foz/ cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento/ o boné azul, marinheiro nos cabelos louros/ sussurrava pequenas frases às silentes águas/ o teu sorriso tão...

A Meus Filhos (11)

A meus filhos/ desejo a curva do horizonte./ / E todavia deles tudo em mim desejo:/ o felino gosto de ver,/ o brilho chuvoso da pele,/ as mãos que desvendam e amam./ / Marga,/ meu fermento,/ neles ca...

A Minha Filha (12)

(Vendo-a dormir)/ / Que alma intacta e delicada!/ Que argila pura e mimosa!/ É a estrela d'alvorada/ Dentro dum botão de rosa!/ / E, enquanto dormes tranquila,/ Vejo o divino esplendor/ Da alma a sai...

Os Filhos São Figuras Estremecidas (13)

Os filhos são figuras estremecidas/ e, quando dormem, a felicidade/ cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes/ os lábios, ama-os sobre as camas./ É por mim que chamam quando temem/ o eclipse e o temporal. T...

Meu Pai, o que é a Liberdade? (14)

- Meu pai, o que é a liberdade?/ / - É o seu rosto, meu filho,/ o seu jeito de indagar/ o mundo a pedir guarida/ no brilho do seu olhar./ A liberdade, meu filho,/ é o próprio rosto da vida/ que a vid...

para uma canção de embalar (15)

embalo a minha filha joana que acordou num berreiro./ a casa está às escuras, vou passando com cuidado/ para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina/ que se calou mas está de olho muito abe...

Para Ser Lido Mais Tarde (16)

Um dia/ quando já não vieres dizer-me Vem/ jantar/ / quando já não tiveres dificuldade/ em chegar ao puxador/ da porta quando/ / já não vieres dizer-me Pai/ vem ver os meus deveres/ / quando esta luz...

Aqui Mereço-te (17)

O sabor do pão e da terra/ e uma luva de orvalho na mão ligeira./ A flor fresca que respiro é branca./ E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas./ Pertenço em cada movimento a esta terra...

Vendo-a Sorrir (18)

(A minha filha)/ / Filha, quando sorris, iluminas a casa/ Dum celeste esplendor./ A alegria é na infância o que na ave é asa/ E perfume na flor./ / Ó doirada alegria, ó virgindade...

Câmara Escura (19)

A meu pai/ / 3/ / A biografia. Revejo-a em tecidos/ fibrosos, retraindo-se. É já visível/ a anquilose o vento austero/ disperso pelos gestos, mais lentos/ / e difíceis. A migração das aves/ inicia-se...

Não é a Tua Mão (20)

Não é a tua mão/ filha/ / que eu levo/ na minha mão/ / é uma raiz/ / que eu planto/ em mim mesmo/ / António Reis, in 'Novos Poemas Quotidianos'...
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Prosema II

Para iludir a dúvida, privado de equipagens, nenhum dos habituais pontos de referência vem em meu auxílio. Procuro um ancoradouro distante, fora do estreito mundo em que me movo. Inútil: bichos, ob...

A Esperança é o Bordão da Vida

A esperança é o bordão da vida. Há uma coisa do Padre Vieira, muito bonita, em que ele fala do Non. Terrível palavra é o non, de qualquer lado por onde se pegue, é sempre Non – isto aparece no meu fi...
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