101 Poemas

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O Cúmplice (21)

Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos./ Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta./ Enganam-me e eu tenho de ser a mentira./ Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno./ Tenho de louv...

A um Jovem Poeta (22)

Procura a rosa./ Onde ela estiver/ estás tu fora/ de ti. Procura-a em prosa, pode ser/ / que em prosa ela floresça/ ainda, sob tanta/ metáfora; pode ser, e que quando/ nela te vires te reconheças/ / ...

A Beleza (23)

De um sonho escultural tenho a beleza rara,/ E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor,/ Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor,/ Com a eterna mudez do marmor' de Carrara/ / Sou esfinge subtil...

Eu Nunca Guardei Rebanhos (24)

Eu nunca guardei rebanhos,/ Mas é como se os guardasse./ Minha alma é como um pastor,/ Conhece o vento e o sol/ E anda pela mão das Estações/ A seguir e a olhar./ Toda a paz da Natureza sem gente/ Ve...

A um Poeta (25)

Tu que dormes, espírito sereno,/ Posto à sombra dos cedros seculares,/ Como um levita à sombra dos altares,/ Longe da luta e do fragor terreno./ / Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno/ Afugentou a...

Se os Poetas Fossem Menos Patetas (26)

Se os poetas fossem menos patetas/ E se fossem menos preguiçosos/ Faziam toda a gente feliz/ Para poderem tratar em paz/ Dos seus sofrimentos literários/ Construíam casas amarelas/ Com grandes jardin...

Partida (27)

Ao ver escoar-se a vida humanamente/ Em suas águas certas, eu hesito,/ E detenho-me às vezes na torrente/ Das coisas geniais em que medito./ / Afronta-me um desejo de fugir/ Ao mistério que é meu e m...

Cisne (28)

Amei-te? Sim. Doidamente!/ Amei-te com esse amor/ Que traz vida e foi doente.../ / À beira de ti, as horas/ Não eram horas: paravam./ E, longe de ti, o tempo/ Era tempo, infelizmente.../ / Ai! esse a...

Testamento do Poeta (29)

Todo esse vosso esforço é vão, amigos: / Não sou dos que se aceita... a não ser mortos. / Demais, já desisti de quaisquer portos;/ Não peço a vossa esmola de mendigos. / / O mesmo vos direi, sonhos a...

Poética (30)

COM as lágrimas do tempo/ E a cal do meu dia/ Eu fiz o cimento/ Da minha poesia/ / E na perspectiva/ Da vida futura/ Ergui em carne viva/ Sua arquitetura./ / Não sei bem se é casa/ Se é torre ou se é...

Auto-retrato (31)

Poeta é certo mas de cetineta/ fulgurante de mais para alguns olhos/ bom artesão na arte da proveta/ marciso de lombardas e repolhos./ / Cozido à portuguesa mais as carnes/ suculentas da auto-importâ...

Resgate (32)

Não sou isto nem aquilo/ É o meu modo de viver/ É, às vezes, tão tranquilo/ Que nem chega a dar prazer.../ Todavia, onde apareço,/ Logo a paz desaparece/ E a guerra que não mereço/ Dá princípio à min...

Soneto da Chuva (33)

Quantas vezes chorou no teu regaço/ a minha infância, terra que eu pisei:/ aqueles versos de água onde os direi,/ cansado como vou do teu cansaço?/ Virá abril de novo, até a tua/ memória se fartar da...

Li Hoje Quase Duas Páginas (34)

Li hoje quase duas páginas/ Do livro dum poeta místico,/ E ri como quem tem chorado muito./ Os poetas místicos são filósofos doentes,/ E os filósofos são homens doidos./ Porque os poetas místicos diz...

Natal d'um Poeta (35)

Em certo reino, á esquina do planeta,/ Onde nasceram meus Avós, meus Paes,/ Ha quatro lustres, viu a luz um poeta/ Que melhor fôra não a ver jamais./ / Mal despontava para a vida inquieta,/ Logo ao n...

Se os Poetas Dessem as Mãos (36)

Se os Poetas dessem as mãos/ e fechassem o Mundo/ no grande abraço da Poesia,/ cairiam as grades das prisões/ que nos tolhem os passos,/ os arames farpados/ que nos rasgam os sonhos,/ os muros de sil...

Deste Modo ou daquele Modo (37)

Deste modo ou daquele modo./ Conforme calha ou não calha./ Podendo às vezes dizer o que penso,/ E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,/ Vou escrevendo os meus versos sem querer,/ Como se escrev...

Emprego e Desemprego do Poeta (38)

Deixai que em suas mãos cresça o poema/ como o som do avião no céu sem nuvens/ ou no surdo verão as manhãs de domingo/ Não lhe digais que é mão-de-obra a mais/ que o tempo não está para a poesia/ / P...

Narciso (39)

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,/ Dobrado em dois sobre o meu próprio poço.../ Ah, que terrível face e que arcabouço/ Este meu corpo lânguido escondia!/ / Ó boca tumular, cerrada e fria,/ Cujo s...

Veio Ter Comigo Hoje a Poesia (40)

Veio ter comigo hoje a poesia./ Há quantos anos? Desde a juventude./ Veio num raio de sol, num murmúrio de vento./ E a ilusão que me trouxe de uma antiga alegria/ reinventou-me a antiga plenitude/ qu...
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