37 Poemas

>>

Dies Irae (1)

Apetece cantar, mas ninguém canta. / Apetece chorar, mas ninguém chora./ Um fantasma levanta/ A mão do medo sobre a nossa hora./ / Apetece gritar, mas ninguém grita./ Apetece fugir, mas ninguém foge....

Balada dos Cãotribuintes (2)

Somos nós os desventurados/ Os pobres contribuintes/ Obrigados a sofrer até ao fim dos tempos/ A sorte a que imper/ A que impertubáveis/ Nos condenam os nossos governos/ Todos os nossos governos/ / S...

As Pessoas Sensíveis (3)

As pessoas sensíveis não são capazes/ De matar galinhas/ Porém são capazes/ De comer galinhas/ / O dinheiro cheira a pobre e cheira/ À roupa do seu corpo/ Aquela roupa/ Que depois da chuva secou sobr...

A Torpe Sociedade onde Nasci (4)

I/ / Ao ver um garotito esfarrapado/ Brincando numa rua da cidade,/ Senti a nostalgia do passado,/ Pensando que já fui daquela idade./ / II/ / Que feliz eu era então e que alegria.../ Que loucura a b...

Sociedade (5)

O homem disse para o amigo:/ — Breve irei a tua casa/ e levarei minha mulher./ / O amigo enfeitou a casa/ e quando o homem chegou com a mulher,/ soltou uma dúzia de foguetes./ / O homem comeu e bebeu...

Pastelaria (6)

Afinal o que importa não é a literatura/ nem a crítica de arte nem a câmara escura/ / Afinal o que importa não é bem o negócio/ nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio/ / Afinal o que importa...

Marketing (7)

Aqui a meu lado o bom cidadão/ escolheu Sagres/ que é tudo tudo cerveja/ a pausa que refresca/ a longa pausa de um longo cigarro King Size./ atenção ao marketi...

Aviso à Navegação (8)

Alto lá!/ Aviso à navegação!/ Eu não morri:/ Estou aqui/ na ilha sem nome,/ sem latitude nem longitude,/ perdida nos mapas,/ perdida no mar Tenebroso!/ / Sim, eu,/ o perigo para a navegação!/ o dos s...

Noite de S. João (9)

Noite de S. João para além do muro do meu quintal./ Do lado de cá, eu sem noite de S. João./ Porque há S. João onde o festejam./ Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,/ Um ruído de garg...

O Pregador de Verdades (10)

Ontem o pregador de verdades dele/ Falou outra vez comigo./ Falou do sofrimento das classes que trabalham/ (Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre)./ Falou da injustiça de uns terem d...

Façam por não Verem Mais (11)

MOTE/ / Vós, ó mães idolatradas,/ Façam por não verem mais/ Crianças abandonadas,/ Tísicas — nos hospitais./ / GLOSAS/ / Sim, vós, ó mães carinhosas,/ Criai as vossas filhinhas,/ Educai-as de crianci...

Edital (12)

Foi afixado/ nos locais do costume/ que É PROIBIDO MENDIGAR./ / Logo mão que se descobre/ escreveu a tinta por baixo/ MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE./ / Joaquim Namorado, in A Poesia Necessária

Unidentified Male Figure (13)

Warhol/ / Olhem, olhem: apruma-se o Amor,/ O decote, a cabeleira que nele poisava,/ O Amor, como se pavoneia, o Amor./ Mãos na fralda, entreolham-se./ Mostra o sovaco rapado, ossudo, até ao sabugo./ ...

Século XXI (14)

Falam de tudo como se a razão/ lhes ensinasse desesperadamente/ a mentir, a lançar/ sem remorso nem asco um novo isco/ à espera que alguém morda/ e acredite nessa liturgia/ cujos deuses são fáceis de...

Sombras (15)

A meio desta vida continua a ser/ difícil, tão difícil/ atravessar o medo, olhar de frente/ a cegueira dos rostos debitando/ palavras destinadas a morrer/ no lume impaciente de outras bocas/ anuncian...

Portwine (16)

O Douro é um rio de vinho/ que tem a foz em Liverpool e em Londres/ e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:/ quando chega ao mar vai nos navios,/ cria seus lodos em garrafeiras velhas,/ desemboca ...

As Putas da Avenida (17)

Eu vi gelar as putas da Avenida/ ao griso de Janeiro e tive pena/ do que elas chamam em jargão a vida/ com um requebro triste de açucena/ / vi-as às duas e às três falando/ como se fala antes de entr...

Decepção à Regra (18)

Sentar-me e/ ver os outros passar é o/ meu exercício favorito. Entretém./ Não esgota./ É gratuito. Neste meu jogo-do-não/ são os outros que passam/ (é aos outros que reservo a tarefa/ de passar). Lav...

Poeminha sobre as Reacções Paradoxais numa Sociedade (19)

Na conversa sofisticada/ a debutante, nervosa,/ tem um problema bem seu:/ fingir que entende tudo/ ou fingir que não entendeu/ / Millôr Fernandes, in Pif-Paf ...

Madrugada (20)

Do fundo de meu quarto, do fundo/ de meu corpo/ clandestino/ ouço (não vejo) ouço/ crescer no osso e no músculo da noite/ a noite/ / a noite ocidental obscenamente acesa/ sobre meu país dividido em c...
>>

Facebook

Inspirações

Amor Inexplicável

© Copyright 2003-2017 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE