Natália Correia

Portugal
13 Set 1923 // 16 Mar 1993
Poeta

A Actualidade em Poesia

Uma coisa é poesia actual, outra coisa é actualidade em poesia. A actualidade em poesia compreende um tempo específico, que não só não é o tempo subordinado ao espaço no qual o poeta se move, como até entra em conflito com este.
Fazer poesia actual não é escrever versos destinados a terem êxito na actualidade representada pelo público e pela critica, porque esta é o atraso de um tempo de que o poeta é o avanço. Suspeito é o poeta sempre que agradavelmente afeiçoa os seus versos a uma comum sensibilidade literária. Não estou fazendo o elogio da poesia obscura ou ambiciosamente original. O gosto literário de uma época pode ser precisamente a obscuridade e a originalidade. É o que acontece com a nossa. E neste caso originalidade como recurso é poeticamente estéril, porque não fascina mas apenas satisfaz. Nada menos original do que a acomodatícia originalidade da poesia dos nossos dias e também nada menos actual por isso mesmo. Quer um exemplo? A última poesia feita com excrescências do Surrealismo execrado pelos seus parasitas. Nalguns casos é uma sufocada montagem de imagens achadas no cesto dos papéis do Surrealismo. Proclama-se uma renovação morfológica investindo de maior poder a palavra, mas em vez de se purificar o espaço poético do delírio metafórico do Surrealismo, cingindo-o à energia da palavra, nunca esta esteve tanto como na nossa poesia ao serviço de significações tão arbitrárias. Não estamos portanto em face de uma poesia nova, mas perante uma degenerescência histérica do Surrealismo. Não é este um caso de poesia desactualizada por excessiva preocupação de actualidade? Poesia actual julgo eu ser aquela que vem criar uma nova exigência numa época e não a que é exigida por essa época.

Natália Correia, in Entrevista (1963)'




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