Robert-Louis Stevenson

Escócia
13 Nov 1850 // 3 Dez 1894
Escritor

A Capacidade para o Ócio

O excesso de actividade, na escola ou no colégio, na igreja ou no mercado, é sintoma de uma vitalidade deficiente; enquanto a capacidade para o ócio implica um apetite ecuménico e uma vigorosa identidade pessoal. Existe uma classe de pessoas, vulgares e quase-mortas, que mal têm consciência de estarem vivas excepto em pleno exercício de alguma ocupação convencional. Levem um destes indivíduos ao campo, ou numa viagem marítima, e vereis como anseia por regressar à secretária ou ao gabinete. São desprovidos de curiosidade; não conseguem entregar-se a paixões momentâneas; são incapazes de desfrutar o exercício das suas faculdades pelo mero prazer de as exercer; e, a não ser que a Necessidade os espicace, podem até ficar imóveis: Não vale a pena conversar com estas pessoas; não conseguem ser ociosos, a sua natureza não é suficientemente generosa; e assim passam numa espécie de coma todas as horas que não dedicam ao frenético lufa-lufa diário. Sempre que não precisam de ir ao escritório, sempre que não têm fome nem lhes apetece beber, o mundo inteiro é um vazio para eles. Se tiverem de esperar mais de uma hora por um comboio, afundam-se, de olhos abertos, num transe prolongado. Quando os vemos assim, é fácil supor que não existe ali nada para observar e ninguém para conversar; pensar-se-á que estão paralisados ou alheados; e, no entanto, é provável que se trate de pessoas competentes, à sua maneira, nos seus ofícios, capazes de detectar rapidamente um erro numa escritura, ou antecipar uma reviravolta nos mercados. Frequentaram escolas e colégios, mas mantiveram sempre o olhar fixo nas medalhas, andaram pelo mundo e conviveram com pessoas inteligentes, mas passaram o tempo preocupados com os seus próprios assuntos. Como se a alma humana não fosse já demasiado pequena, encolheram as suas ainda mais, com uma vida inteira de trabalho e pouco ócio; e assim chegam aos quarenta anos, apáticos e indiferentes, as mentes esvaziadas de toda e qualquer matéria ou divertimento, sem um único pensamento para os ocupar enquanto aguardam a chegada do comboio. Enquanto andavam de calções, talvez brincassem a trepar aos comboios; aos vinte anos, talvez fossem galar raparigas; mas agora o cachimbo está gasto, a caixa de rapé vazia, e os cavalheiros ficam ali sentados, muito hirtos, com olhares de lamentação. Não creio que a isto se possa chamar Ter Êxito na Vida. Mas não é apenas esta pessoa que sofre com os seus hábitos atarefados, é também a mulher e os filhos, os amigos e conhecidos, e até aqueles com quem se senta numa carruagem ou num coche. A devoção perpétua ao que um homem considera o seu trabalho só pode ser sustentada negligenciando todas as outras coisas. E não é de forma alguma uma certeza que o trabalho de um homem seja a coisa mais importante.

Robert-Louis Stevenson, in 'Apologia do Ócio'




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