Eça de Queirós

Portugal
25 Nov 1845 // 16 Ago 1900
Escritor

A Democracia é uma Vitoriosa?

A democracia, saída toda inteira da declaração dos Direitos do Homem, que afirmara soberbamente a sua liberdade e a sua igualdade, encontra no homem um ser mesquinhamente sujeito a todas as fatalidades físicas e a todas as dependências sociais, e não consegue libertá-lo delas - porque contra os direitos do homem, declarados, protestam as realidades da Natureza, experimentadas. Daí todas as angustiosas contradições do século. Em lugar da fraternidade, vem a guilhotina operar como factor de civilização; - e em vez das raças fundadas numa concórdia universal, crescem as nacionalidades antagónicas, que abominam e vivem cobertas de ferro e armas, espreitando, por cima das fronteiras, o apetecido momento psicológico de se entredilacerarem. Da aristocracia territorial e senhorial decepada renasce, como cabeça número dois da hidra, a aristocracia argentária e industrial; - e o mundo, que deixara de ver escravos revoltados e jacqueries, de novo as encontra ante si, mas implacáveis e dolorosas, sob o nome de comunismo e de niilismo. E, como se isto não bastasse, a própria ciência nega a origem da democracia, que se dizia ser a igualdade natural - provando que a única lei universal é a desigualdade; que o homem, como os outros seres, está sujeito à selecção evolutiva; que o direito das espécies à vida se avalia à proporção da sua capacidade para viver; que quem triunfa e sobrevive é o mais forte; e que, portanto, só há realidade de direito quando há manifestações de força. Diremos ainda que a democracia é uma vitoriosa?

Eça de Queirós, in 'Notas Contemporâneas'




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