Vasco Pulido Valente

Portugal
n. 21 Nov 1941
Escritor / Ensaísta

A Evidência

Os ricos podem pagar a crise? Os ricos vão pagar a crise? Ou os pobres vão pagar a crise? E se nem os ricos, nem os pobres, separadamente ou em conjunto, conseguirem pagar a crise? E se tudo isto não for, no fundo, uma crise, mas for o colapso definitivo do que se chamou o Estado social ou, com mais pedantismo e menos propriedade, «o modelo social» europeu, com que vivemos, ou tentámos viver, neste último meio século? Pensem bem e vejam a diferença. Há meio século, a América e a Europa (sobretudo a Inglaterra) dominavam economicamente o mundo. Hoje, a dívida pública da América e da Europa (sobretudo a da Inglaterra) excedem a imaginação e são maiores, muito maiores, do que no fim da Segunda Guerra Mundial, quando em Londres se vivia pior do que durante o blitz.

E a coisa não fica por aqui. Um exemplo: na altura em que Bevan fundou o primeiro «serviço nacional de saúde» quase que não existiam «meios complementares de diagnóstico» ou a milésima parte das drogas que habitualmente se tomam hoje, a cirurgia era rudimentar e pouco usada e a especialização não chegava longe. Em geral, um doente não custava caro: a natureza depressa o salvava ou o matava, com uma despesa ridícula para o Estado e quase sem esforço para os médicos. Quem esteve ultimamente num hospital, não se esqueceu com certeza da quantidade de máquinas que lhe penduraram no corpo, da multidão de gente que o tratou e do rio de remédios que sem parar lhe meteram nas veias. Quem os paga? E onde se arranja dinheiro para os pagar?

E quem paga o ensino e as pensões? Para não falar da infinidade de subsídios de vária espécie e ordem a que o cidadão normal se acha com direito... Desde 2001 que a América (com três guerras, verdade) vai pedindo humildemente emprestado o que não ganha. Como a Inglaterra e a Itália e também a França. A esquerda inventou uma conspiração da direita para «liberalizar» o mundo. A esquerda nem pelos dedos sabe contar. Nenhuma economia conseguiria sustentar o «Estado social» que ela pretende e reclama. Não é o «capitalismo selvagem» que a persegue através de mercados malévolos. É a realidade. As sociedades da social-democracia, que um conjunto especial de circunstâncias por um momento permitiu, não voltam. Chegou a altura de perceber claramente esta evidência.

27/08/2011

Vasco Pulido Valente, in 'De Mal a Pior'




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