Jean-Paul Sartre

França
21 Jun 1905 // 15 Abr 1980
Escritor/Filósofo [Nobel 1964]

A Imortalidade Pela Literatura, a Filosofia Como Meio de a Aceder

Simone de Beauvoir: Com que contava para sobreviver - na medida em que pensava sobreviver: com a literatura ou com a filosofia? Como sentia a sua relação com a literatura e a filosofia? Prefere que as pessoas gostem da sua filosofia ou da sua literatura, ou quer que gostem das duas?
Jean-Paul Sartre: Claro que responderei: que gostem das duas. Mas há uma hierarquia, e a hierarquia é a filosofia em segundo e a literatura em primeiro. Desejo obter a imortalidade pela literatura, a filosofia é um meio de aceder a ela. Mas aos meus olhos ela não tem em si um valor absoluto, porque as circunstâncias mudarão e trarão mudanças filosóficas. Uma filosofia não é válida por enquanto, não é uma coisa que se escreve para os contemporâneos; ela especula sobre realidades intemporais; será forçosamente ultrapassada por outros porque fala da eternidade; fala de coisas que ultrapassam de longe o nosso ponto de vista individual de hoje; a literatura, pelo contrário, inventaria o mundo presente, o mundo que se descobre através das leituras, das conversas, das paixões, das viagens; a filosofia vai mais longe; ela considera que as paixões de hoje, por exemplo, são paixões novas que não existiam na Antiguidade; o amor...
Simone de Beauvoir: Quer dizer que para si a literatura tem um carácter mais absoluto, a filosofia depende muito mais do curso da história; está mais submetida a revisões?
Jean-Paul Sartre: Ela chama necessariamente revisões porque ultrapassa sempre o período actual.
Simone de Beauvoir: De acordo; mas não há um absoluto no facto de ser Descartes ou de ser Kant mesmo se eles têm de ser ultrapassados de certa maneira? Eles são ultrapassados mas a partir do que me trouxeram; há uma referência a eles que é um absoluto.
Jean-Paul Sartre: Não o nego. Mas isso não existe em literatura. As pessoas que gostam de Rabelais de todo o coração, lêem-no como se ele tivesse escrito ontem.
Simone de Beauvoir: E de uma maneira absolutamente directa.
Jean-Paul Sartre: Cervantes, Shakespeare, lemo-los como se eles estivessem presentes; Romeu e Julieta ou Hamlet, são obras que parecem ter sido escritas ontem.
Simone de Beauvoir: Dá pois a primazia da sua obra à literatura? No entanto, no conjunto das suas leituras e da sua formação, a filosofia desempenhou um enorme papel.
Jean-Paul Sartre: Sim, porque a considerei como o melhor meio de escrever; era ela que me dava as dimensões necessárias para criar uma história.
Simone de Beauvoir: Não se pode ainda assim dizer que a filosofia era apenas um meio em si.
Jean-Paul Sartre: De início, foi.
Simone de Beauvoir: Ao princípio, sim; mas depois quando se vê o tempo que passou a escrever L'Être et le Néant, a escrever a Critique de la Raison Dialétique, não se pode dizer que isso era simplesmente o meio de fazer obras literárias; foi também porque, em si, isso o apaixonava.
Jean-Paul Sartre: Sim, interessava-me, é uma verdade. Queria dar a minha visão do mundo ao mesmo tempo que a fazia viver por persongaens nas minhas obras literárias ou em ensaios. Descrevia essa visão aos meus contemporãneos.
Simone de Beauvoir: Em suma, se alguém lhe dissesse: «É um grande escritor, mas, como filósofo, não me convence», preferi-lo-ia a alguém que lhe dissesse: «A sua filosofia é formidável, mas como escritor pode mudar de ofício?».
Jean-Paul Sartre: Sim, prefiro a primeira hipótese.

Diálogos entre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir in "A Cerimónia do Adeus":




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