Rui Nunes

Portugal
n. 1947
Escritor / Professor de Filosofia

A Língua não Tem Nada de Sagrado

A língua tem uma história, e essa história está sempre a funcionar. Eu não quero que a língua me domine, quero ser eu a dominá-la. Eu não quero que seja ela a comandar-me, quero ser eu a comandá-la. A língua não é um dom de Deus; a língua é um instrumento. E quando eu ouço dizer «A língua é sagrada», ou ouço falar do «respeito pela língua», tenho medo. A língua não tem nada de sagrado, como uma enxada não tem nada de sagrado. Serve, a enxada, para eu cavar a terra; a língua serve para eu falar, para eu escrever, para eu comunicar. É um meio, um meio que às vezes surge quase como um fim; mas todas as vezes que a língua surge como um fim, é preciso suspeitar. Ela, realmente, é um meio, e é preciso reconduzi-la à condição de meio que ela é, não sacralizá-la. Portanto, todos os processos de contaminação da língua me fascinam. Quanto mais contaminada a língua for, mais plástica se torna, e menor poder tem. Realmente, parece que usam a língua como um meio, um meio para contar histórias, mas não: estão a ser utilizados pela língua. A língua é que sabe as histórias que quer que se conte. Porque a língua tem lá todas as histórias; foram estabelecidas ao longo dos séculos. No fundo deste os poemas homéricos, desde os textos da Antiguidade Clássica, que as histórias estão por aí.

Rui Nunes, in 'Jornal Público, Ipsilon, 17 Novembro 2017'




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