Rafael Chirbes

Espanha
27 Jun 1949 // 15 Ago 2015
Escritor

A Luta de Classes Acabou

A luta de classes esfumou-se, dissolveu-se, a democracia tem funcionado como um diluente social: toda a gente vive, compra e acorre ao hipermercado, ao balcão do bar e aos concertos pagos pelo município na praça central, e todos falam ao mesmo tempo, vozes que se misturam como nas tumultuosas reuniões no cine Tivoli evocadas pelo meu pai, já não se distingue o que está em cima do que está em baixo, está tudo enredado, confuso, e, porém, reina uma misteriosa ordem, eis a democracia. Mas, de súbito, desde há um par de anos, parece desenhar-se uma ordem mais explícita, menos insidiosa. A nova ordem é bem visível, com os níveis superior e inferior bem definidos: alguns transportam com orgulho sacos repletos de compras e cumprimentam sorridentes os vizinhos à porta do centro comercial, outros remexem nos contentores onde os empregados do hipermercado lançaram as embalagens de carne fora de prazo, a fruta e as verduras pisadas, os pastéis industriais caducados. Lutam entre si por esses alimentos.

(...) Trivial, a luta de classes? Então não era isso que determinava, que impregnava e condicionava tudo? O grande motor da história universal? Não era nisso que acreditavam o meu pai e os seus camaradas, assim como Francisco na sua juventude, essa teoria em que eu não acreditava nem deixava de acreditar, mas que dava por estabelecida? Esses mártires, os que caíram em combate, os resistentes, os torturados pela Brigada Politico-Social, pela PIDE, pela CIA, pela Okhrana. Essas ideias foram a pilha voltaica que alimentou as aspirações do meu pai, as do jovem Francisco na sua luta secreta contra o próprio pai (cuspir no retrato do falangista e limpar os vestígios da cuspidela). Por isso desprezei o meu pai desde que comecei a fazer uso da razão. Por ele ter feito disso o centro da sua existência. Entediava-me ouvir os seus lamentos, as suas imprecações, e que tudo fosse a diferença entre os de cima e os de baixo, eles e nós. Teu e nosso. Que tudo fosse sempre dar a isso. Se bem que, nessa tarde, perante o Polifemo de cinco olhos que eram um olho só, eu tenha recordado a linguagem que o meu pai usou até ao fastio. Eles sou eu e nós somos eles. Basta. Vamos ao que interessa. Há que levar o momento a sério. E existe alguma coisa séria nesta vida? Morrer é coisa séria? Mas se até um recém-nascido o sabe fazer. Se até os animais mais estúpidos morrem. Não tenhas medo, papá, a morte não tem seriedade nenhuma, não é nada, o pântano tem um suave regaço e o lodo é um berço tépido que te acolhe quando a noite cai, um colchão de chocolate espumoso onde poderás, poderemos ambos, descansar. Nunca viste esses túmulos de nobres medievais que têm enroscado aos pés, lavrado no mesmo mármore, o cão fiel? Pois aqui é a mesma coisa. Tu e o teu cãozito.

Rafael Chirbes, in "Na Margem"




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