Pablo Neruda

Chile
12 Jul 1904 // 23 Set 1973
Poeta [Nobel 1971]

A Timidez

A verdade é que vivi muitos dos meus primeiros anos, e talvez os segundos e os terceiros, como uma espécie de surdo-mudo.
Ritualmente vestido de negro desde muito novinho, tal como se vestiam os verdadeiros poetas do século passado, tinha uma vaga impressão de não me apresentar muito mal. Mas, em vez de me aproximar das raparigas, ciente de que gaguejaria ou coraria diante delas, preferia passar de lado e afastar-me, ostentando um desinteresse que estava longe de sentir. Todas eram, para mim, um grande mistério. Preferiria morrer queimado naquela fogueira secreta, afogar-me naquele poço de enigmática profundidade, mas não me atrevia a atirar-me ao fogo ou à água. Ora, como não encontrava ninguém que me desse um empurrão, passava pelas margens dessas fascinações sem olhar sequer e muito menos sorrir.

Acontecia outro tanto com os adultos, gente mínima, funcionários de caminho-de-ferro e de correios e suas «senhoras esposas», assim intituladas porque a pequena burguesia se escandaliza, intimidada, diante da palavra mulher. Eu escutava as conversas à mesa do meu pai. Mas, no dia seguinte, se esbarrava na rua com quem tinha comido na noite anterior em minha casa, não me atrevia a cumprimentar e até mudava de rumo para evitar o mau bocado.

A timidez é uma condição estranha da alma, uma categoria, uma dimensão que se abre para a solidão. É também um sofrimento inseparável, como se tivéssemos duas epidermes e a segunda pele interior se irritasse e contraísse perante a vida. Entre as estruturas do homem, esta qualidade ou este defeito são parte da liga que vai fundamentando, numa longa circunstância, a perpetuidade do ser.

O meu pluvioso torpor, o meu ensimesma mento prolongado, durou mais do que era necessário. Quando cheguei à capital, ganhei lentamente amigos e amigas. Quanto menos importância me concediam, mais facilmente dava a minha amizade. Não tinha naquele tempo grande curiosidade pelo género humano. «Não posso chegar a conhecer todas as pessoas do mundo», pensava. Ora, apesar disto, surgia em certos meios uma pálida curiosidade por este novo poeta de pouco mais de dezasseis anos, um rapaz reticente e solitário que viam chegar e partir sem dar os bons-dias nem se despedir. Além de que eu aparecia envergando uma larga capa espanhola que me tornava semelhante a um espantalho.

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"




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