Miguel Torga

Portugal
12 Ago 1907 // 17 Jan 1995
Escritor/Poeta

62 Textos

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Nascer Todas as Manhãs (1)

Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela ...

É Impossível que o Tempo Actual não Seja o Amanhecer doutra Era (2)

É impossível que o tempo actual não seja o amanhecer doutra era, onde os homens signifiquem apenas um instinto às ordens da primeira solicitação. Tudo quanto era coerência, dignidade, hombridade, res...

Um Autêntico Sonho de Amor (3)

Orgulho, vaidade, despeito, rancor, tudo passa, se verdadeiramente o homem tem dentro de si um autêntico sonho de amor. Essas pequenas misérias são fatais apenas no começo, na puberdade, quando se ol...

Como é Difícil Ser Natural (4)

É curioso como é difícil ser natural. Como a gente está sempre pronta a vestir a casaca das ideias, sem a humildade de se mostrar em camisa, na intimidade simples e humana da estupidez ou mesmo da in...

A Vida não Cabe numa Teoria (5)

A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em...

É Preciso Regressar ao Amigo Íntimo (6)

Custa, mas o melhor é ver o problema a toda a luz. No conceito do homem abstracto é necessário afinal meter tanto estrume, que não há entusiasmo que resista. Feito de mil incoerências, movido por sen...

Não há Nada que Resista ao Tempo (7)

Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo. Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afecto. Nisto de duas pessoas...

A Maravilha da Vida é Tudo Nela Ter Justificação (8)

Desabafo dum amigo, que não encontra justificação para o seu pecado mortal, que é viver. Viver ao sol, gratuitamente, como um lagarto. Respondi-lhe que a maravilha da vida é tudo nela ter justificaçã...

O Caminho da Salvação (9)

A cegueira e a obstinação dos homens lembra-me às vezes a cegueira e a obstinação das varejeiras enfrenizadas contra as vidraças. Bastava um momento de serenidade, dez-réis de bom senso, e em qualque...

As Chamadas Verdades Essenciais do Homem (10)

As chamadas verdades essenciais do homem lembram-me às vezes números de um grande programa que os tambores anunciam pelas ruas fora que vai ser deslumbrante e cumprido à risca, e que os pobres actore...

É uma Tolice Desculpar um Falhado (11)

É uma tolice desculpar um falhado com argumentos de meio, época, saúde, idade, etc. O verdadeiro triunfador cria as condições da sua realização. Que se importa a gente com as doenças de Beethoven, e ...

O Encanto da Vida (12)

Todas as noites acordado até desoras, à espera da última cena de pancadaria num jogo de futebol, do último insulto num debate parlamentar, do último discurso demagógico num comício eleitoral, da últi...

Devo à Paisagem as Poucas Alegrias que Tive no Mundo (13)

Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora ...

Uma Discussão nesta Santa Terra Portuguesa Acaba sempre aos Berros (14)

Não há maneira. Por mais boa vontade que tenham todos, uma discussão nesta santa terra portuguesa acaba sempre aos berros e aos insultos. Ninguém é capaz de expor as suas razões sem a convicção de qu...

O Cinismo dos Valores (15)

Cada vez mais desesperado. Olho, olho, e só vejo negrura à minha volta. Fé? Evidentemente... Enquanto há vida, há esperança — lá diz o outro. Mas, francamente: fé em quê? Num mundo que almoça valores...

Somos Cidadãos Sem Laços de Cidadania (16)

É escusado. Em nenhuma área do comportamento social conseguimos encontrar um denominador comum que nos torne a convivência harmoniosa. Procedemos em todos os planos da vida colectiva como figadais ad...

Humanidade às Cegas (17)

Tanto jornal, tanta rádio, tanta agência de informações, e nunca a humanidade viveu tão às cegas. Cada hora que passa é um enigma camuflado por mil explicações. A verdade, agora, é uma espécie de som...

A Gente pouco Sabe e pouco Pode (18)

A gente pouco sabe e pouco pode. Conhece apenas duas regras de higiene (que o corpo se recusa a observar), três de moral (que o instinto se recusa a praticar), e uma ou duas de civilidade (que só a p...

Cada Português que se Preza (19)

É escusado. Cada português que se preza é uma muralha de suficiência contra a qual se quebram todas as vagas da inquietação. Conhece tudo, previu tudo, tem soluções para tudo. E quando alguém se apre...

Prever o Futuro (20)

Das coisas mais difíceis que há na vida é prever o futuro. Quando se tem quarenta anos, e já se pode olhar isto com certa perspectiva, é que se vê como se errou em todas as profecias. Conseguem-se vi...
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Faça o Favor de Gostar de Si Próprio

O que é preciso para uma pessoa gostar dela própria é que ela faça o favor de fazer quanto a si tudo o que é preciso fazer para a partir de determinada altura se esqueça completamente daquilo que é o...

O Amor a Dois

O amor a dois só funciona se as individualidades se amarem a elas próprias em primeiro lugar. E quem pensar o contrário ou é infeliz ou tem os dias contados para ser solteiro outra vez. Existem...
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