Afonso Cruz

Portugal
n. 1971
Escritor / Ilustrador / Realizador / Músico

Abstermo-nos de Agir

Por vezes abstermo-nos de agir pode ser uma firme posição de luta, mas noutras não passa de uma cumplicidade criminosa. Slawomir Mrozek tem um conto de que gosto muito, pela ironia. Um homem que decide mudar o armário da sala e a mesa. Depois, mais inconformista ou vanguardista, muda os móveis e a sua maneira de estar de uma forma mais radical, para acabar aborrecido com o resultado: volta então o pôr os móveis no seu lugar original e quando sente novamente o tédio, recorda os tempos em que foi revolucionário e os mudava de sítio. É uma excelente parábola da classe média, do conformismo e da resignação.

Os que verdadeiramente andam a mudar o mundo, os que não estão contentes com o ar fétido, que querem moldar a sociedade àquilo que acham certo, não são neste momento os anjos bons, são os demónios. E nós estamos a permiti-los.
Achamos que este é o melhor dos mundos e estamos armados com sofás e comandos de televisão e, se for preciso agir, há a caixa de comentários do Facebook.
Somos meros espectadores. Deixamos que se ergam muros na Europa, na América, em todo o lado. Permitimos a espoliação dos refugiados. O problema é que já vimos isto acontecer, mas na altura usavam-se bigodes à Charlot.

Afonso Cruz, in 'Jalan Jalan'




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