José Luís Peixoto

Portugal
n. 4 Set 1974
Escritor

Acreditei que Podia Dar-te um Céu para Brincares

Filho. Gostava que houvesse uma aragem qualquer que me explicasse esse teu sorriso e outra que te explicasse, sem te magoar, o meu silêncio. Gostava de aprender o trejeito dos teus lábios, a maneira dos teus olhos, e to lembrar quando tivesses a minha idade. Fui um dia a tua inocência. E dela ficou-me a grande inocência de acreditar.
Acreditei que podia dar-te um céu para brincares e que a vida seria o que nós quiséssemos. Assim. Bastaria querermos, esforçarmo-nos muito, trabalharmos, e teríamos então o que desejássemos. Não digo coisas majestosas, roupas bonitas ou charretes, mas comida, comida gostosa e bem temperada, e um cavalo de cartão novo, se por acaso esquecesses o teu no quintal numa noite de chuva. Acreditei que a felicidade dos teus olhos a sorrir podia voltar aos olhos da tua mãe, aos meus e perdurar intocada nos teus. Acreditei em tantas coisas. Sabes, aproximo-me da vila e o que me espera é morrer um pouco mais. Preferia que não o soubesses, mas infelizmente nem isso posso esconder-te, porque um dia, quando te contarem a história da tua vida, dir-te-ão que numa noite de estrelas, o teu pai foi à vila e levou uma sova; dir-te-ão que havia poucos dias, no campo, tinha levado outra sova e que, com o peito enrolado numa ligadura, seguia o seu caminho sabendo o que o esperava. Não vão dizer-te que, durante o caminho, pensou em ti, disse-te segredos. Não vão dizer-te, porque o não podem entender, que o teu pai avançava por ti, para que te sobrasse uma réstia daquilo que esse teu pai sonhou dar-te, para te proteger um pouco do que é mais forte, sempre muito mais forte. Dir-te-ão que o teu pai levou uma sova e que levou outra sova, e terás vergonha de mim. Os anos encarregar-se-ão de apagar tudo o que julguei ser certo e nunca foi, para ficar apenas o que aconteceu e, por fim, até isso ser também esquecido. Os anos apagar-me-ão, vais ver. E isso não me entristece, porque sempre soube que seria assim. Mas, é preciso dizer-te, nunca te quis deixar sozinho. Se o fiz, não o quis fazer. Alegre, pequeno filho bonito, livre. Entrei agora na vila. Olham-me as pessoas com boas noites arrastados. Sei que és muito novo para entender tudo o que te quero dizer, mas ao menos a palavra pai, de tudo isto, quero que recordes ao menos a palavra pai. Quero que me olhes nos olhos, mesmo quando já tiver desaparecido há muito e partilhe com' a terra a sua solidão; quero que me aprendas e descubras o que pensei para ti nesta noite. Estou no terreiro. Entro na venda. Num lado do balcão, o sorriso do demónio. No outro, o gigante dobrado com a cabeça no tecto.

José Luís Peixoto, in 'Nenhum Olhar'




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