Pablo Neruda

Chile
12 Jul 1904 // 23 Set 1973
Poeta [Nobel 1971]

Álvaro

... Diabo de homem, este Álvaro... Agora chama-se Álvaro de Silva... Vive em Nova Iorque... Passou quase toda a vida na selva nova-iorquina... Imagino-o a comer laranjas a horas insólitas, queimando com o fósforo o papel dos cigarros, fazendo perguntas vexatórias a toda a gente... Foi sempre um mestre desordenado, possuidor de uma brilhante inteligência, inteligência inquiridora que parecia não o levar a pparte nenhuma, excepto a Nova Iorque. Era em 1925...

Entre as violetas que se lhe escapavam da mão quando corria para as entregar a uma transeunte desconhecida, com a qual queria logo ir deitar-se, sem saber como ela se chamava nem donde era, e as suas intermináveis leituras de Joyce, revelou-me a mim e a muitos outros insuspeitadas opiniões, pontos de vist-a de grande cidadão que vive dentro da urbe, na sua cova, e sai a explorar a música, a pintura, os livros, a dança... Sempre a comer laranjas, a descascar maçãs, insuportável dietético, assombrosamente intrometido em tudo, víamos nele, por fim, o sonhado antiprovinciano que todos nós, os provincianos, tínhamos querido ser, sem as etiquetas coladas nas malas, antes circulando dentro de si próprio, com uma mistura de países e concertos, de cafés ao alvorecer, de universidades com neve no telhado...

Chegou a fazer-me a vida impossível... Eu, aonde chego, assumo um sonho vegetal, fixo-me num sítio e tento lançar qualquer raiz, para pensar, para existir... Álvaro mudava de uma electricidade para outra, fascinado com os filmes em que poderíamos trabalhar, vestindo-nos imediatamente de muçulmanos para ir aos estúdios... Andam por aí retratos meus com traje bengali (como permanecia sem falar, julgaram na tabacaria, em Calcutá, que era da família de Tagore) de quando corríamos aos estúdios Dum-Dum a ver se nos contratavam... E depois havia que sair a correr da Y.M.C. A. porque não tínhamos pago o alojamento... E as enfermeiras que nos amavam... Álvaro meteu-se em negócios fabulosos... Queria vender chá de Assame, fazendas de Caxemira, relógios, tesouros antigos... Tudo se esfumava sem demora... Abandonava as amostras de caxemira, as bolsinhas de chá sobre as mesas, sobre as camas... Já tinha pegado numa maleta ejd estava noutro lado... Em Munique... Em Nova Iorque...

Conheci escritores pendulares, indefectíveis, prolíficos, mas este é o maior... Quase nunca publica... Não compreendo... Esta manhã, sem sair da cama, com uns óculos encavalitados no nariz, já está zumba-que-zumba na máquina de escrever, gastando resmas de todo o género de papel, de todos os papéis... No entanto, a sua mobilidade, o seu criticismo, as suas laranjas, as suas cíclicas transmissões, a sua lura em Nova Iorque, as suas violetas, o seu enredo que parece tão claro, a sua clareza tão enredada... Não sai dele a obra que sempre se esperou... Será porque não lhe importa... Será porque não pode fazê-la... Porque está tão ocupado... Porque está tão desocupado... Mas sabe tudo, vê tudo através dos continentes com aqueles olhos azuis intrépidos, com aquele tacto subtil que deixa, contudo, escoar-lhe por entre os dedos a areia do tempo...

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"




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