Pedro Chagas Freitas

Portugal
n. 25 Set 1979
escritor

Aperta-me para Sempre

O dia adormece-me debaixo dos olhos, e as tuas mãos são a pele que Deus escolheu para tocar o mundo; não existe nenhum lugar mais divino do que o teu beijo, e quando quero voar deito-me a teus pés.
Peço-te que não vás, que fiques apenas para eu ficar, que permaneças no teu lado da cama, e eu no meu, a sentirmos que o tempo corre, e podes até adormecer, podes ler a revista das mulheres das passadeiras vermelhas e os homens com os abdominais que ninguém tem, ou simplesmente olhar o tecto e pensar em ti; eu fico aqui, a olhar-te para saber que existo, a pensar no quanto te quero e no tamanho que tem o teu corpo dentro do meu. Saber que há a curva das tuas costas para encontrar a curva da vida, percorrer com os olhos o cair do teu suor, e perceber a eternidade possível.
A imortalidade é um orgasmo contigo.
Gemes até ao fim do mundo por dentro dos meus ouvidos, todo o meu corpo se vem quando estás a chegar, e a verdade do universo é a física exígua do espaço entre nós. Aperta-me para sempre até ao princípio dos ossos, até que a carne seja impossível e tenha de haver algo mais para explicar a nossa existência.
Só sei que sou mais do que um corpo quando vens para me apertar.
Quando te abraço até o poema se curva, pequeno na sua poesia para o intangível do que nos une, as pessoas não acreditam que aconteça algo assim e é isso o que nos salva da excomunhão. Depois vais, pedes para sair, que a vida também existe e as contas têm de se pagar, e eu entendo enfim que o problema disto tudo é ninguém entender o mais importante da vida.
A empregada de limpeza chega e encontra-me de caneta na mão, a escrever-te estas palavras e outras quaisquer, estendido no meu lado da cama à espera que tu outra vez, e em silêncio vai limpando o que há para limpar, já sabe que não limpa as marcas dos teus pés no chão da cozinha (tão bonitos os teus pés espalhados pela casa), muito menos os cigarros já fumados que deixas no cinzeiro, e eu continuo a escrever o que não sei o que é, o que só escrevo para me livrar de ti por momentos, não sei para onde vão as frases e suspeito que elas também pouco saibam de mim, e muitos minutos ou horas depois, tantas frases já entre nós, a porta abre-se, a empregada de limpeza já não está, na cozinha já há provas de que enquanto te escrevia alimentei o corpo para estar vivo, porque só vivo te posso amar, e o teu sorriso. Todas as frases, todo o trabalho de um dia, e o teu sorriso. Para quê escrever quando existe o teu sorriso ao fim do dia? Apetece rasgar tudo, as folhas todas e as minhas horas sem ti todas, e procurar o verso perfeito por dentro do que te vejo quando ao fim da dia a porta e tu e o teu sorriso. Só ainda existe quem me leia porque ainda existe quem não te conheça. Sou tão pequeno para o tamanho de ti, meu amor.
Quando te abraçar de novo terei um texto para te dar, prometo todos os dias. Até que chegas tu e nada está a altura, e o grande artista, ouve bem, o grande artista é só aquele que está sempre aquém daquilo que ama.

Pedro Chagas Freitas, in 'Prometo Falhar'




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