José Luís Peixoto

Portugal
n. 4 Set 1974
Escritor

Até Paris

Até Paris
O que o leva a Paris?
Quando estava acordado, o Cosme gostava de fazer perguntas. O homem desculpou-se, precisava de ir aos lavabos. Mal saiu, o Cosme descuidou-se.
Tinha este guardado.
O Ilídio olhou-o sem paciência. Ficaram calados. Na estação de Orléans, o Cosme abriu a janela e assomou--se. Voltou coberto pelo apito do chefe de estação. Trazia o peito preenchido de ar novo. O sorriso enchia-lhe a cara inteira. Agarrou as mãos do Ilídio.
Já viste? Estamos na França. Já estamos na França.
O Ilídio tirou as mãos, não conseguia ser proprietário do mesmo entusiasmo. Antes disso, queria chegar a Paris. O Cosme já estava imparável, tinha vencido a guerra. Guerra, qual guerra? E encheu essas horas com promessas, com planos. No dia seguinte, ia tratar de uma lista infinita de assuntos. A França já era dele. O Ilídio estava como se o ouvisse, tinha a posição de estar a ouvi-lo, tinha o olhar, tinha uma expressão que era exactamente como se o ouvisse.
Estavam quase a chegar a Paris quando o Cosme reparou que o homem ainda não tinha regressado. Enumerou possibilidades por comprovar, e deu-se como voluntário para ir buscá-lo. Foi.
O Ilídio esperou, esperou, mas foi só quando estavam mesmo a chegar à estação, a placa Paris-Austerlitz num muro, que o Cosme regressou e disse:
Ninguém sabe dele.
O Ilídio, pouco convencido, disse-lhe para ficar no vagão enquanto o ia buscar. Varreu a carruagem de primeira classe em pouco tempo, nada. Entrou para as outras carruagens, havia homens a empurrarem-se, a apertarem--se nos corredores, corpos com rostos. O comboio parou.
O Ilídio foi rejeitado de um lado e de outro por pessoas que queriam sair. Já no comboio deserto, coberto de destroços, ruínas com cheiro de pés transpirados e comida, o Ilídio passou por cada canto daquela máquina imensa, abriu as portas de correr dos vagões e abriu as portas que separavam as carruagens, o cheiro a óleo negro, e nada. Em todos os lados, nada. Na estação, havia multidões de portugueses a abraçarem-se, irmãos e primos de boina, filhos a serem levantadas no colo, esposas comovidas, sentidas, chorosas. O Ilídio voltou ao vagão de primeira, onde encontrou o Cosme, na mesma posição em que o tinha deixado.
Então?
Não sabiam o que fazer. Chegou o revisor e facilitou--lhes a escolha, tinham de sair. Juntos, levaram a mala do homem, grande carrego, e desceram na estação. Estavam na França, estavam mesmo na França, mas não sabiam o que fazer. As mulheres afastavam-se debaixo dos xailes, os homens carregavam sacas de batatas aos ombros e afastavam-se também, os cachopos eram cachopinhos e afastavam-se. A estação ficou vazia de todos os que tinha vindo naquele comboio estafado.
Foi o Cosme, claro, que sugeriu que abrissem a mala. Se calhar, tem ouro lá dentro. O Ilídio começou por lutar com a ideia mas, por falta de alternativa, anuiu. Foram para um canto. Olharam para todos os lados e, com cuidado, soltaram as correias e abriram as fivelas.
Dentro da mala, desarticulado, estava o corpo do homem, morto, dobrado, ensopado por uma pasta de sangue, com os braços e as pernas sem jeito, a traçarem ângulos rectos, com um olhar cego e a pele do rosto vincada pelo interior da mala.
Enquanto fechavam a mala, tiveram dificuldade em engolir saliva, respiraram ar grosso, morno. Depois, deixaram-na onde estava, encostada a uma parede, e foram-se embora o mais depressa que conseguiram.
À porta da estação, angústia, precisavam de uma cidade enorme que os recebesse. Paris tinha um tamanho que, naquele momento, ainda não eram capazes de calcular. Foi preciso atravessarem pontes sobre o Sena, andarem muito, calcorrearem praças, avenidas, quilómetros de passeios, até serem capazes de respirar fundo e, por fim, por fim, perceberem que tinham chegado.

José Luís Peixoto, in 'Livro'




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