Florbela Espanca

Portugal
8 Dez 1894 // 8 Dez 1930
Poetisa

Como te Tens Lembrado Hoje de Mim?

O que tens tu feito, amor? Andarás, como segunda-feira, cavaleiro andante a flirtar às janelas das ruas do Alto do Pina, com damas de cem anos?... Cem anos, pelo menos... Eu creio mesmo que tu disseste mais alguns... Sempre estás uma prenda, um espertalhão... Tenho que te educar convenientemente e ensinar-te que damas de cem anos e mulheres que fazem queijadas, não servem, ou pelo menos não devem servir, a quem tem a suprema felicidade de possuir uma mulher como eu, que sou uma pérola, ou por outra: um colar de pérolas, como ontem gentilmente me chamaste... Estás de acordo, não é verdade?

A tua pequenina fera está há imenso tempo ansiosa que a chuva acabe, para deitar o focinhito fora do covil, ao menos por cinco minutos; mas não há meio, o diabo da chuva continua a cair sem piedade e daqui a pouco a ferazinha sai mesmo com chuva e tudo. Há tanto tempo que não saio! Em horas de concentração de consciência, eu ponho-me a pensar que nunca julguei capaz que um homem pudesse fazer da Miss América, como muita gente me chamava dantes, esta burguezinha pacata, que, detrás dos vidros duma janela, passa a vida a fazer rendas, tal qual como uma poética e sentimental heroína de Gréville...

Como os homens nos transformam! Nós, pobres mulheres, apesar do nosso imenso e frágil orgulho, não somos, afinal, mais do que argila que as mãos deles moldam a seu belo capricho. Feliz da argila que, no seu caminho, encontra, como eu, o estatuário que a vai moldando a acariciá-la! Gosto tanto de ti que me não revolto, eu, a eterna revoltada, aquela que teve sempre por coração um oceano imenso a que ninguém jamais descobrira o fundo. Como te tens lembrado hoje de mim? Com saudades? Com desejos de me beijar? Com tristeza? Como? Gostava tanto, tanto de saber a cor dos teus pensamentos quando são meus! Queria que eles fossem roxos, como os lilases, ou cor-de-rosa como os beijos que eu te dou. Tenho saudades, saudades, saudades.

Reparei agora para uma coisa: é curioso como eu não sou capaz de vestir um vestido alegre quando tu não vens. Já segunda-feira vesti o vestido preto e hoje sem pensar fui vesti-lo outra vez. E é verdade que eu ando de luto, de luto por uns beijos que trago e que se não dão e que morrem de frio longe da tua boca; queres luto mais triste? Meu amigo, tu és muito mau que me não quiseste hoje ao pé de ti. Urso, urso, urso. Vou finalmente, agora que não chove, à livraria escolher um livro que tenha o poder de me adormecer para sonhar contigo e para esquecer as horas que tenho de passar longe de ti.

E a nossa casa? Não te esqueças de falar com o homem maravilhoso que põe as paredes limpas sem as limpar. Não mandes fazer nada sem me dizer, senão enforco-te! Quem me dera já na nossa casinha, no nosso pequenino ninho, meu amor querido! No pesadelo de relógio ainda nem são 3 horas! Tantas horas têm ainda que passar, tantas! Sabes? Os noivos feios já cá não estão e hoje almocei ao pé de três horrorosos japoneses que falaram sempre inglês e que me tiraram todo o apetite, porque eram muito feios, eram feios demais. Porque será que para este hotel só vem gente feia? Será por ser recomendado pela Propaganda de Portugal? Somos nós os únicos bonitos, pelo menos, é esta a minha opinião...

Ainda hoje vou escrever a meu pai para que se não lembre de me pôr o retrato no Diário de Notícias como uma criada gatuna ou um menino perdido. Felizmente todas as tragédias têm o seu lado cómico, e felizes dos feitios que as vêem só desse lado. Naturalmente só recebes domingo esta carta, em todo o caso pode ser que a recebas amanhã e sempre te vou dizendo que te não esqueças dos livros (Ai, livros, livros!...) e da encomenda célebre da Figueira da Foz!! Sempre me acontecem coisas! Agora, até querem que eu receba encomendas duma terra onde não conheço ninguém! Adeus, amor. Vou comprar o livro. Beijos muito grandes da tua Bela.

Florbela Espanca, in 'Carta a António Guimarães (1920)'




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