Fernando Pessoa

Portugal
13 Jun 1888 // 30 Nov 1935
Poeta

Como Trair o Seu Marido em Imaginação

Proponho-me ensinar-lhes como trair o seu marido em imaginação.
Acreditem-me: só as criaturas ordinárias traem o marido realmente. O pudor é uma condição sine qua non de prazer sexual. O entregar-se a mais de um homem mata o pudor.
Concedo que a inferioridade feminina precisa de macho. Acho que, ao menos se deve limitar a um macho só, fazendo dele, se disso precisar, centro de um círculo de raio crescente de machos imaginados.

A melhor ocasião para fazer isso é nos dias que antecedem os da menstruação. Assim:
Imaginam o seu marido mais branco de corpo. Se imaginam bem, senti-lo-ão mais branco sobre si.
Retenham todo o gesto de sensualidade excessiva. Beijem o marido que lhes estiver em cima do corpo e mudem com a imaginação o homem num olhar belo que lhes estiver em cima da alma.
A essência do prazer é o desdobramento. Abram a porta da janela ao Felino em vós.
Como tracasser o marido.
Importa que o marido às vezes se zangue.
O essencial é começar a sentir a atracção pelas coisas que repugnam não perdendo a disciplina exterior.
A maior indisciplina interior junta à máxima disciplina exterior compõe perfeita sensualidade. Cada gesto que realiza um sonho ou um desejo, irrealiza-o realmente.

A substituição não é tão difícil como julgam. Chamo substituição à prática que consiste em imaginar o gozo com um homem A quando se está copulando com um homem B.
Minhas queridas discípulas, desejo-lhes, com um fiel cumprimento dos meus conselhos, inúmeras e desdobradas volúpias […] com o animal macho a que a Igreja ou o Estado as tiver atado pelo ventre ou pelo apelido.
É fincando os pés no solo que a ave desprende o voo. Que esta imagem, minhas filhas, vos seja a perpétua lembrança do único mandamento espiritual.
Ser uma cocotte, cheia de todos os modos de vícios, sem trair o marido, nem sequer com um olhar — a volúpia disto, se souberdes consegui-lo.
Se cocotte para dentro, trair o marido para dentro está-lo traindo nos abraços que lhe dais, não ser para ele o sentido do beijo que lhe dais — ó mulheres superiores, ó minhas misteriosas Cerebrais — a volúpia é isso.

Porque não aconselho eu isto aos homens também? Porque o Homem é outra espécie de ente. Se é inferior, recomendo-lhe que use de quantas mulheres puder: faça isso e sirva-se do meu desprezo quando (…). E o Homem superior não tem necessidade de nenhuma mulher. Não precisa de posse sexual para a sua volúpia. Mas a mulher, mesmo superior, não sente [?] isto: a mulher é essencialmente sexual.
Que de Infernos e Purgatórios e Paraísos tenho em mim — e quem me conhece um gesto desadorando [?] a vida… a mim tão calmo e tão plácido?

Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego '




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