Michel Eyquem de Montaigne

França
28 Fev 1533 // 13 Set 1592
Ensaísta/Escritor

Contente Está Quem Assim se Julga de si Mesmo

A abastança e a indigência dependem da opinião de cada um; e a riqueza não mais do que a glória, do que a saúde têm tanto de beleza e de prazer quanto lhes atribui quem as possui. Cada qual está bem ou mal conforme assim se achar. Contente está não quem assim julgamos, mas quem assim julga de si mesmo. E apenas com isso a crença assume essência e verdade.
A fortuna não nos faz nem bem nem mal: somente nos oferece a matéria e a semente de ambos, que a nossa alma, mais poderosa que ela, transforma e aplica como lhe apraz - causa única e senhora da sua condição feliz ou infeliz.
Os acréscimos externos tomam a cor e o sabor da constituição interna, como as roupas que nos aquecem não com o calor delas e sim com o nosso, que a elas cabe proteger e alimentar; quem abrigasse um corpo frio prestaria o mesmo serviço para a frialdade: assim se conservam a neve e o gelo.
É certo que, exactamente como o estudo serve de tormento para um preguiçoso, a abstinência do vinho para um alcoólatra, a frugalidade é suplício para o luxorioso e o exercício incomoda um homem delicado e ocioso; e assim acontece com o restante. As coisas não são tão dolorosas nem difíceis por si mesmas; mas a nossa fraqueza e falta de ânimo fá-las assim. Para julgar sobre as coisas grandes e elevadas é preciso uma alma equivalente, ou então atribuímos a elas o vício que é nosso. Um remo parece curvo na água. Não importa somente que vejamos a coisa, mas como a vemos.

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'




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