Vasco Pulido Valente

Portugal
n. 21 Nov 1941
Escritor / Ensaísta

Deixar Andar

«Isto não pode continuar», «Isto tem de mudar» e «Não há saída», com a variante «Não há homens», são com certeza as mais velhas frases da política portuguesa moderna, e as mais repetidas.
Também, no tempo em que se liam livros, se costumava citar a sentença final sobre a pátria dos grandes portugueses. A de Afonso de Albuquerque e a de Camões, claro. Mas sobretudo o «Isto dá vontade de morrer» de Herculano (inventada por Bulhão Pato) e o exasperado testamento de Joaquim António de Aguiar: «É muito triste nascer entre estúpidos, viver entre estúpidos, morrer entre estúpidos» (provavelmente inventada por um jornal qualquer). Do lado da arte, as coisas não foram melhores. Camilo deu um tiro na cabeça. Antero deu um tiro na cabeça. Oliveira Martins, que escreveu dois breviários clássicos do pessimismo indígena, a História de Portugal e o Portugal Contemporâneo, achou o governo «uma cloaca». E de Eça nem vale a pena falar: fora o bacalhau e o arroz de cabidela, não estimava, como ele dizia, este «sítio».

E, no entanto, apesar do seu universal e dramático desespero os portugueses nunca arranjaram maneira de mudar. Depois de uma guerra civil que durou oito anos (1826-1834), os liberais, com Garrett à frente, começaram logo a proclamar a sua repugnância pelo resultado. O radicalismo, com uma «revolução» (a de Setembro) e outra guerra civil no papo (a Patuleia), acabou ainda mais desiludido. Os «desiludidos» da República apareceram logo no dia 6 de Outubro e os do PREC durante o próprio PREC. Entretanto, incansavelmente «modernizado», o país ficou igual a si próprio e suportou com paciência 6o anos de «Rotativismo», 50 de ditadura e agora 30 do que por aí se chama democracia. Nada «daquilo podia continuar», nada «disto pode continuar». Infelizmente, continuou, e continua.

Porquê? Porque em Portugal não existiam e não existem verdadeiras divisões: nem étnicas, nem linguísticas, nem religiosas, nem sequer regionais. Esta massa homogénea tende fatalmente para a imobilidade e o conformismo. A política e a história passam por ela à superfície, sem a transformar. Ainda por cima a pobreza geral (dentro da desigualdade, evidentemente) cria uma preocupação comum e uma comum execração ao risco. Nenhuma força, nenhuma causa, é capaz de abalar a resistência da passividade nacional. Estamos bem connosco e, quanto ao resto, o melhor é deixar andar.

25/06/2005

Vasco Pulido Valente, in 'De Mal a Pior'




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