Henry Miller

Estados Unidos
26 Dez 1891 // 7 Jun 1980
Escritor

Envolvê-la nos Meus Braços

Três minutos depois de você ter partido. Não, não consigo reprimi-lo. Digo-lhe o que já sabe: amo-a. É isto que destruí vezes sem conta. Em Dijon, escrevi-lhe cartas longas e apaixonadas (se você tivesse permanecido na Suíça ter-lhas-ia enviado), mas como posso eu enviá-las para Louveciennes?

Anais, não posso dizer muito agora - encontro-me demasiado alterado. Quase não consegui conversar consigo, porque estava continuamente prestes a levantar-me e a envolvê-la nos meus braços. Tinha esperanças de que você não tivesse de ir jantar a casa... De que pudéssemos ir a algum lado jantar e dançar. Você dança... Já sonhei com isso vezes sem conta... Eu a dançar consigo, ou você a dançar sozinha com a cabeça inclinada para trás e os olhos semicerrados. Algum dia tem de dançar para mim dessa maneira. Esse é o seu Eu espanhol, o tal sangue andaluz destilado.

Estou sentado no seu lugar e já levei aos lábios o copo onde você bebeu. Mas não sei o que dizer. O que você me leu pôs-me a cabeça às voltas. A sua linguagem é ainda mais avassaladora do que a minha. Comparado consigo, não passo de um petiz... porque, quando o útero que há em si fala, ele abarca tudo — e é esta a escuridão que adoro. Estava enganada ao pensar que eu apreciava unicamente o valor literário. Isso era a minha hipocrisia a falar. Não ousei até este momento revelar o que penso realmente. Mas estou a submergir — você abriu-me o vazio -, e já não há como voltar.

Sem que você se aperceba, tenho estado continuamente a viver consigo. Mas tenho tido medo de o admitir... Pensei que isso fosse assustá-la. Hoje, tinha planeado trazê-la ao meu quarto e mostrar-lhe as aguarelas. Mas pareceu-me tão sórdido levá-la ao meu miserável hotel! Não, não posso fazer isso. Você é que há-de levar-me a algum lado — à sua barraca, como lhe costuma chamar. Leve-me lá de modo que eu possa envolvê-la nos meus braços.

E estou a mentir, Anais, quando lhe digo que não quero venerá-la. Esperava que eu lhe dissesse semelhantes coisas? Quando vi «Marius» (filme de Marcel Pagnol), era consigo que estava a sonhar — você é como aquele barco em direcção ao mar, com as velas completamente abertas e a luz do Sol a divertir-se por todo o seu corpo. E, tal como Marius, juntei-me ao barco no último momento: saltei pela janela traseira e corri até ao cais.

Ainda assim, não sei o quanto é que me atrevo a escrever-lhe, apesar da sua permissão. Tenho a sensação de que posso estar a cometer um sacrilégio, mas, então, isso não se me afigura possível. Os meus instintos devem estar certos. No entanto, aguardo avidamente algumas palavras suas. Sim, você já me disse, vezes e vezes sem conta, de cem maneiras diferentes... Mas eu sou lento, Anais; lento, talvez porque isto é uma tortura tão deliciosa... É como estar à espera de a ver levantar-se do seu trono.

Quanto ao Hugo... Anais, não consigo pensar no Hugo. E impossível pensar nele e em si. Por favor, não minta a si mesma agora. Pelo menos não à minha frente!
É possível que lhe telefone amanhã para avisá-la de que esta carta estará à sua espera. Telefonar-lhe-ia imediatamente, só que sei que o Hugo haveria de aí estar também.

Há um telefone no meu hotel, mas não sei qual é o número, e receio que ele não se encontre na lista telefónica. De qualquer modo, se acabar por conseguir telefonar-me, o meu quarto é o número 40.
Então, não vou vê-la domingo... Isso também me é difícil. Mas é melhor - você está certa.

Henry Miller, in "Carta de Henry Miller a Anais Nin, 1932"




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