Plutarco

Grécia Antiga
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Filósofo/Prosador

Esquecimento Esvaziante

A variedade das nossas emoções torna claro que cada homem guarda dentro de si os celeiros do contentamento e do descontentamento: os jarros das coisas boas e más não estão depositados «na soleira de Zeus», mas na alma. O néscio negligencia e desdenha as coisas boas que lá estão porque a sua imaginação acha-se sempre voltada para o futuro; o sensato, porém, torna os factos pregressos vividamente presentes com recordá-los. O presente oferece-se ao toque da nossa mão apenas por um instante e logo nos ilude os sentidos; os tolos julgam que ele não é mais nosso, que não mais nos pertence.
Há a pintura de um cordoeiro no inferno, com um asno a engolir toda a corda feita por ele, à medida que ele a entretece; assim é a multidão acometida e dominada pelo esquecimento insensato e ingrato, que apaga cada acto, cada sucesso, cada experiência aprazível de bem-estar, de camaradagem e de deleite.
O esquecimento não consente à vida desenvolver-se unitariamente, o passado entretecido com o presente, mas separa o ontem do hoje, como se fossem de diferente substância, e o hoje do amanhã, como se não fossem o mesmo; transforma toda a ocorrência em não-ocorrência. A lógica do sofista, que nega o princípio do desenvolvimento fundado em que o estar-se em fluxo constante transformaria cada um de nós num outro homem, faz lembrar os que não retêm nem acalentam o passado na memória, mas permitem que ele se esvaia, tornando-se dessarte vazios e empobrecidos, dia por dia, e dependentes do amanhã, como se tudo quanto ocorreu ontem e anteontem não tivesse ocorrido ou fosse destituído de importância para eles.

Plutarco, in 'Do Contentamento'




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