Afonso Cruz

Portugal
n. 1971
Escritor / Ilustrador / Realizador / Músico

Existir é Melhor do que não Existir

A viagem pertence ao domínio do invisível, do inimaginável. É.um espaço que está para lá da nossa visão no momento, o que ainda não vimos, mas desejamos ver. Quando começamos a caminhar tornamos o visível e o inimaginável tangível. Tal como quando temos uma ideia e a executamos. Um passo fora de casa e começamos a desenhar o mapa do mundo.
O passado é como uma resposta, fixo, mas o futuro porta-se como uma pergunta e encerra inúmeras possibilidades. Devemos estar cientes da troca que fazemos a todo o instante: converter perguntas em respostas, possibilidades em certezas, futuro no passado. O futuro, pela sua indefinição, tem uma riqueza enorme, o passado é um caminho único, limitado à interpretação. Há um empobrecimento intrínseco ao tempo, na medida em que converte a riqueza de inúmeros caminhos em apenas um só. Mas não nos importamos, uma vez que normalmente sacrificamos tudo por uma resposta, pela existência. Nesse sentido, parece-nos que o acto é superior à potência, mesmo que esta contenha todas as possibilidades e que ao escolher, nos seja obliterada a liberdade. Assim, Anselmo de Cantuária teria razão ao afirmar, como parte do seu famoso argumento ontológico, que existir é melhor do que não existir. Quando vemos um bloco de pedra que pode vir a ser a escultura de um cavalo ou de um homem ou de uma flor, queremos que venha a ser a escultura de um cavalo ou de um homem ou de uma flor, não queremos que se mantenha um bloco de pedra: renunciamos à possibilidade pela consumação, pela limitação, por um único caminho. O sacrifício da liberdade, do mundo das possibilidades, à carne da matéria, ao acto, é o que mais desejamos: tornar a viagem «real», retirar-lhe tudo o que poderia ter sido e transformá-la no que efectivamente foi.

Afonso Cruz, in 'Jalan Jalan'




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