David Mourão-Ferreira

Portugal
24 Fev 1927 // 16 Jun 1996
Poeta/Escritor

Fogo Contra a Cidade

Não admira que muita gente, durante as férias, queira sobretudo fugir para bem longe das cidades: os homens comprazem-se, desde longa data, em atribuir às cidades toda a casta de malefícios. No mundo antigo, é sobretudo no período helenístico, e do próprio coração da mais civilizada das metrópoles — Alexandria —, que rompe, por vários meios, a barragem de fogo contra a vida citadina. Os poetas deleitam-se, por um lado, em assinalar a decadência e a ruína de cidades que outrora foram belas, florescentes, poderosas: a Antologia Grega está recheada de epigramas desta espécie. Assiste-se, por outro lado, ao surgimento de uma poesia de inspiração pseudocampestre, de estilizados motivos pastoris, por onde se vão insinuando, ora de modo implícito ora mais declarado, a apologia da rusticidade e a condenação do viver urbano: sob este aspecto, a obra de Teócrito constitui, na ordem cronológica, um dos primeiros exemplos do requintado citadino em surda revolta contra a cidade.

Anteriormente, nas cidades gregas do período áureo, mais tarde em Roma, durante a República, a polis revestia-se de prestígios hieráticos; e era apanágio exclusivo dos homens livres poderem consagrar-se, por inteiro, à solução dos problemas que a afligiam, à gestão dos negócios em que ela se empenhava, à salvaguarda e orientação do seu destino — à «política», em suma. Em tais circunstâncias, seria incoerência, da parte de um homem livre, atacar a cidade por cuja estrutura ele próprio se sentia responsável. A cidade, no conjunto, constituía apenas a resultante do bom ou mau funcionamento das instituições — as quais por seu turno dependiam do concurso que cada um lhes dava, no irrecusável exercício da plena cidadania. Não se encontram, por isso mesmo, nos discursos de Cícero, diatribes contra a cidade, mas tão-só ataques frontais a todos aqueles que pela sua incúria ou indignidade a comprometiam. Em contrapartida, com a instauração do Império, a substituição do poder de todos pelo poder de um só coincide, de forma curiosa, com o aparecimento de queixas e de protestos in abstracto, não já contra os homens, não já em defesa das instituições, mas difusamente dirigidos à mole anónima da urbe: e, a este respeito, a poesia de Juvenal é extremamente significativa.

Permanece bastante enigmática a personalidade deste satírico indignado e azedo, a quem Victor Hugo chamava, vibrante de entusiasmo, «a velha alma livre das repúblicas mortas», mas que, em boa verdade, não possuía sequer um ideário preciso e levava a prudência ao ponto de apenas investir contra os que já estavam debaixo da terra, para quanto ao resto se limitar às mais vagas generalidades... Contam--se, neste número, as suas queixas contra a cidade de Roma, desenvolvidas sobretudo ao longo da Sátira III — arquétipo retórico, segundo me parece, de muitas lamúrias posteriores acerca da vida citadina.
«Aqui, morre-se de insónia; adoece-se com as más digestões que provocam fermentações no estômago; onde encontrar uma casa em que se durma tranquilo?» Particularizando, alude, a seguir, «ao trânsito interrompido pelos carros nas ruas estreitas» (já nesse tempo!) e à «ruidosa desordem do rebanho que não avança» (Que diria ele se fosse acordado, de hora a hora, pela passagem dos aviões a jacto?). Antes, através de lamentações de outro género (Quid Romae fadam? mentiri néscio; ou seja: «Que farei em Roma, já que não sei mentir?»), tratara de lançar sobre a vida da cidade o labéu da impostura, quando afinal todos sabemos que o hábito de mentir não é atributo exclusivo dos grandes centros e que muitos sujeitos, não só nascidos na província, como provincianos para toda a vida, são tipos acabados de impenitentes mentirosos. Importava-lhe, no entanto, estigmatizar, em bloco, a vasta metrópole em que vivia, mas em cujo destino não podia intervir.

O paralelo é aliciante: Teócrito, na Alexandria dos Ptolomeus, e Juvenal, na Roma dos Antoninos, vegetam ambos sob regimes de poder pessoal, ainda que benignos, dizem, em qualquer dos casos (Mas quem se fia hoje na lenda de lais benignidades?). Seja como for, ambos se encontram na situação, cómoda talvez, mas humilhante, de cidadãos privados do direito de cidadania. Impossibilitados de sequer apontar as causas dos males que vêem à sua roda, o primeiro ocupa-se em reerguer, pela imaginação, um paraíso bucólico, antídoto e correctivo do inferno citadino, e o segundo compraz-se em descrever esse mesmo inferno, adrede utilizando as cores mais tenebrosas da sua paleta de retórico. De qualquer modo, a ambos teremos de remontar para melhor compreendermos o longo debate, tão insistente nas literaturas modernas a partir do Renascimento, entre a vida do campo e a vida da cidade. A Teócrito, ou directamente ou por intermédio de Vergílio, se foi buscar a pintura idealizada da cena rústica; a Juvenal, os «tópicos» mais constantes para a campanha denegridora dos ambientes urbanos.

Os velhos mestres da Retórica (cujo ensino, segundo parece, Juvenal seguiu com proveitosa aplicação) chamavam «tópicos» (do grego tópoi, e em latim loci communes: lugares--comuns) àquelas frases esteriotipadas que deviam esmaltar as várias partes do discurso; e eram tão importantes que Quintiliano as considerava argumentorum sedes, isto é: bases dos argumentos. Modernamente, um grande filólogo e historiador da literatura — Ernst-Robert Curtius — consagrou-se à tarefa de investigar a passagem de alguns desses «tópicos» do âmbito da Retórica para o das obras literárias. Por outro lado, há «tópicos» originariamente cunhados em textos poéticos e que ulteriormente se degradam em «lugares-comuns» da conversação de todos os dias: estão, sem dúvida, nesse caso alguns dos ataques de Juvenal à vida citadina, ataques que hoje repetimos, ou ouvimos repetir, sem lhes sondarmos o verdadeiro significado.

Será tudo realmente tão mau, na vida das cidades, quanto esses «tópicos» o deixam entender? Jamais é completa a percepção que temos de qualquer realidade; mais incompleta a tornamos ainda pela sôfrega adopção de preconceitos de toda a ordem, os quais se exprimem, geralmente, em «tópicos» vazios de sentido. Mas se fizéssemos um esforço? Se nos recordássemos também, quando estamos à beira de romper em jeremiadas contra a vida citadina, do muito que apesar de tudo lhe devemos? Se fôssemos mais ao fundo da questão, tentando modificar um certo número de condições fundamentais, a fim de combatermos, não os efeitos, mas as causas? Não me parece aconselhável prosseguirmos, indefinidamente, na doce nostalgia de Teócrito, na oca indignação de Juvenal.
(1962)

David Mourão-Ferreira, in 'Terraço Aberto'




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