Friedrich Wilhelm Nietzsche

Alemanha
15 Out 1844 // 25 Ago 1900
Filósofo

Hábitos Breves

Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até à medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar.
E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objecto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver.
Em compensação, odeio os hábitos que duram, parece-me que tiranos se aproximam de mim para inquinar o meu ar vital com o seu hálito, logo que os acontecimentos se orientam de tal maneira que parece deverem sair deles hábitos definitivos: por exemplo, devido a uma função social, à frequência constante do mesmo meio, de uma residência determinada, de um género de saúde exclusivo. Confessarei até que, no mais fundo da minha alma, estou grato às minhas misérias físicas, à minha doença e a todas as minhas imperfeições, porque me deixam mil portas de saída que me permitem escapar aos hábitos definitivos. O que me seria, para falar verdade, mais insuportável, o que verdadeiramente me aterraria, seria uma vida totalmente despojada de hábitos, uma vida que exigisse uma improvisação constante; isso seria o meu exílio, seria a minha Sibéria.

Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'




Facebook

Aprender a Ver

Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lado...

O Que se Pode Prometer

Pode-se prometer acções, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou odiá-lo sempre, ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas...

A Fragilidade dos Valores

Todas as coisas «boas» foram noutro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por te...
© Copyright 2003-2016 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE