José Luís Peixoto

Portugal
n. 4 Set 1974
Escritor

Na Tua Voz, Irmão

Estavam sentados e não falavam. Cada um olhava para um lado que não via. Atrás dos rostos tristes, cismavam. Pensando, Moisés dizia palavras ao irmão, esperançado de que ele as ouvisse; no pensamento, dizia será um instante e trará a solidão. Pela primeira vez, gritaremos o nome um do outro. Já reparaste?, nunca precisámos de nos chamar. Não sei como é o meu nome na tua voz. Na tua voz, irmão, irmão. Não sei como é o teu nome na minha voz. Pela primeira vez, gritaremos o nome um do outro, e o desespero será a antecâmara de uma dor triste a que nos habituaremos, como se habitua um homem sem coração ao espaço negro no peito. Viveste sempre na minha vida, e eu estive sempre contigo quando sorriste. Hoje, a solidão. Desapareceremos um do outro, deixaremos de ser nós para sermos só tu e só eu. Mas não esqueceremos. E lembrarmo-nos será o maior sofrimento, recordarmos o que fomos onde estivermos e não podermos ser mais nada nesse dia. Lembrarmo-nos de quando acordávamos e olhávamos um para o outro, pois tínhamos acordado ao mesmo tempo e tínhamos ao mesmo tempo pensado em ver-nos. Lembrarmo-nos de falar na nossa maneira de falar, e ficarmos com essa linguagem só nossa na cabeça, essa maneira de falar que nunca mais utilizaremos com ninguém. Hoje, deixar-te-ei, sabendo que sempre tive amor por sempre teres estado comigo. E não tenho mais vergonha dessa palavra que nunca dissemos: amor: essa palavra: amor: que nunca chegámos a dizer e que hoje preciso de dizer. Sincero, verdadeiro, irmão. Irei sentir a tua falta. Sem o poder explicar a ninguém por não existir ninguém ao meu lado, irei sentir a tua falta. E, por mais negra que seja a planície por onde vaguearei a eternidade, será sempre a recordação dolorosa de um sol-pôr, será sempre a mágoa de só te poder lembrar.

(...)Pelo dedo que nos une, a tua morte tem avançado para dentro de mim como uma doença a querer progredir. Sinto a minha mão tão gelada como a tua, sinto o sangue a passar-me pelas veias da mão e a correr gelado pelo corpo todo, sinto o meu corpo tão gelado como o teu. Irmão, ouvi-te antes de morreres e tu não me ouves agora. As minhas palavras aqui são como palavras escritas num papel branco que se mantém branco com essas palavras invisíveis de alguém que as leia, palavras a envelhecerem por não haver quem as compreenda, a perderem o seu significado, a misturarem-se imperceptíveis numa brisa em que ninguém repara. Irmão, todo o meu olhar é desperdiçado por saber que tu não vês nada. Todo o meu olhar é inútil no teu silêncio, todo ele se torna nesse silêncio que recorda a tua vida e a tua morte. A luz da manhã, calada por estares morto e seres tu que lhe davas voz; a luz da manhã, a iluminar cada canto escuro como quando o teu sorriso. Se aqui estivessem os teus olhos abertos, havias de gostar de ver esta manhã. Não seria triste, sentiríamos esta manhã no rosto e aquecer-nos-ia. Quero mais uma vez ser pequeno a brincar contigo. Estarmos sentados na terra, e um amanhecer como este descer sobre a nossa brincadeira para se sentar ao nosso lado e brincar connosco e ser talvez o nosso brinquedo. Quero adormecer contigo, como adormecíamos descansados nas noites de um agosto tão distante deste. Nus, com o lençol enrodilhado aos pés da cama, com a janela aberta para a noite do quintal, adormecíamos e, com a primeira aragem da madrugada, acordávamos ao mesmo tempo e tapávamo-nos com o lençol e, nesse tempo de sermos crianças dormíamos até querer, acordávamos simultâneos quando a luz do sol nos chegava aos olhos fechados e logo abertos. Quero estar contigo na courela do marcos, e o nosso pai a abrir regos com o arado, e a dizer-nos vão levar este molho de couves e este de nabiças ao senhor marcos, e todo o caminho falávamos as tantas coisas que tínhamos para dizer e que tantas vezes dizíamos sem falar; e quando chegávamos à porta grande, era eu que levantava a mão de ferro a segurar uma bola e a batia de encontro à porta, eras tu que falavas à criada, dizias o nosso pai mandou este ramo de couves e este ramo de nabiças para o senhor marcos, e a criada dizia estão entregues; nem obrigado, nem escusavam de se incomodar, dizia estão entregues, e fechava-nos a porta. A tua voz é o que nunca mais poderei ouvir, e que só queria ouvir agora a dizer vamos descansar, a dizer irmão irmão. Irmão. Chorei muito, e esta noite foi a eternidade de muitas vidas a sofrer, o desespero igual dentro de muitas vidas sem esperança. Sei o sabor das lágrimas. Lembras-te de quando chovia? Lembras-te do nosso pai, na feira, a comprar as nossas duas sombrinhas iguais e pretas? Passávamos nas ruas, as duas sombrinhas juntas, rodeávamos as poças, a chuva descia rios nas regadeiras, as duas sombrinhas juntas, a chuva caía em fios das varetas.
As lágrimas lembram-me agora essa chuva, mas a tua ausência de tudo o que é esta manhã torna esta manhã e tudo num encontro com a tristeza, e não há lágrimas aqui que se possam comparar à chuva a teu lado. Tudo contigo era bom, porque foste bom, irmão. E esta noite sepultou--me. E esta noite sem ti foi muito tempo, muito mais que uma noite, muitos anos a gastarem-me. Sou mais velho do que se estivesse morto há muitos séculos, mais exausto do que se fosse já só a minha memória não lembrada por ninguém. Partiste para o lugar eterno da tua solidão infinita e deixaste-me sozinho neste lugar de tanta gente longe de mim.

José Luís Peixoto, in 'Nenhum Olhar'




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