Luís Vaz de Camões

Portugal
1524 // 10 Jun 1580
Poeta

Não Posso o que Quero

Que graça será esperardes de mim propósitos, em cousa que os não tem para comigo? Pois, ainda que queira, não posso o que quero; que um sentido remontado, de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe sucede assim; e «cada um acode ao que lhe mais dói»; e mais eu, que o que mais me entristece é contentamento ter, pois fujo dele, que minh'alma o aborrece, porque lhe lembra que é virtude de viver sem ele. Porque já sabeis que mágoa é: «vê-lo hás e não o paparás». Por fugir destes inconvenientes,

Toda a cousa descontente
contentar-me só convinha,
de meu gosto;
que, o mal de que sou doente,
sua mais certa mesinha
é desgosto.

Já ouviríeis dizer: «Mouro, o que não podes haver, dá-o pela tua alma». O mal sem remédio, o mais certo que tem, é fazer da necessidade virtude; quanto mais, se tudo tão pouco dura como o passado prazer. Porque, enfim, allegados son iguales los que viven por sus manos, etc. A este propósito, pouco mais ou menos, se fizeram umas voltas a um mote de enche-mão, que diz por sua arte, zombando mais, que não de siso (que toda a galantaria é tirá-la donde se não espera), o qual crede que tem mais que roer do que um praguento. Portanto recuerde el alma adormida, e mande escumar o entendimento, que, doutra maneira, de fuera dormiredes, pastorcico. E o meu senhor diz assim:

Dava-lhe o vento no chapeirão,
quer lhe dê, quer não.

Bem o pode revolver,
que o vento não traz mais fruto;
e mais vento é sentir muito
o que, enfim, fim há-de ter.
O melhor, é melhor ser,
que o vento no chapeirão,
quer lhe dê, quer não.

Luís Vaz de Camões, in "Cartas"




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