Luís Vaz de Camões

Portugal
1524 // 10 Jun 1580
Poeta

No Mundo não Tem Boa Sorte Senão quem Tem por Boa a que Tem

Uma cousa sabei de mim: que queria antes o bem do mal, que o mal do bem; porque muito mais se sente o porvir, que o passado; e a morte, até matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque, para tomar a palha a esta matéria, são necessárias asas de nebri. Mas vós sois homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mim vos sei dar, é que:

Esperança me despede,
tristeza não me falece,
e tudo o mais m'aborrece.
Já que mais não mereceu
minha estrela,
só a tristeza conheço,
pois que para mim nasceu
e eu para ela.

No mundo não tem boa sorte senão quem tem por boa a que tem. E daqui me vem contentar-me, de triste. Mas olhai de que maneira:

Vivo assi ao revés,
tomando por certa vida
certa morte,
com que folgo, em que me pês,
pois minha sorte é servida
de tal sorte.

Uma cousa sabei: que o mal, ainda que às vezes o vejais louvar, não há quem o louve com a boca que o não taxe com o coração:

Ajudai-me a sofrer
vida tão sem sofrimento,
e tão sem vida:
ver que, enfim, fim há-de ter
desgosto e contentamento
uma medida.

Atentai que não são maus confeitos de enforcado para os que estão com o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, ainda que sejam diferentes na vida, são conformes na morte; porque vemos

Que não há tão alta sorte,
nem ventura tão subida,
ou desestrada,
a quem não assopre a morte,
não sopre o fogo da vida.

A seu fim todas cousas vão correndo;
nem há cousa que o tempo não consuma,
nem vida que de si tanto presuma
que se não veja nada, em se vendo.

Que o mais certo que temos
é nada termos certo
cá na terra,
pois para seus não nascemos;
se o seu nos dá incerto,
nada erra.

Quero-vos dar conta de um soneto sem pernas, que se fez a um certo reencontro que se teve com este destruidor de bons propósitos, e não se acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor é o seguinte:

Forçou-me Amor, um dia, que jogasse;
deu as cartas, e d'ouros levantou;
e, sem respeitar mão, logo triunfou;
cuidando que o metal que me enganasse,

dizendo, pois triunfou, que triunfasse
a uma sota de ouros que jogou;
eu então, por burlar quem me burlou,
três paus joguei, e disse que ganhasse.

Luís Vaz de Camões, in "Cartas"




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