Pablo Neruda

Chile
12 Jul 1904 // 23 Set 1973
Poeta [Nobel 1971]

O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hernández antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solitária pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto, empoleirados numa máquina debulhadora. Nunca conversavam. Falavam de tudo em tom de brincadeira, salvo quando lutavam. Mas a lutar eram ciclones— arrasavam tudo o que viam diante dos olhos. Eram também os primeiros nos churrascos em pleno campo, no vinho tinto e nas violas plangentes. Eram homens da fronteira, gente de que eu gostava. Estudantil e pálido, sentia-me diminuído ao lado daqueles bárbaros estudantes de actividade. E eles, não sei porquê, tratavam-me com certa delicadeza, que em geral não tinham para ninguém.

Depois do churrasco, das violas, do ofuscante cansaço do sol e do trigo, tinha de me arranjar como pudesse para passar a noite. Os casais e as mulheres sozinhas acomodavam-se no chão, dentro do acampamento erguido com tábuas recém-cortadas. Quanto aos rapazes, fomos destinados a dormir na eira. Elevava-se nela uma montanha de palha e podia meter-se na sua macieza amarela uma aldeia inteira. Para mim, tudo aquilo era uma inusitada incomodidade. Não sabia como devia estender-me. Pus cuidadosamente os sapatos debaixo de uma camada de palha de trigo, que iria servir-me de almofada. Tirei a roupa, enrolei-me no meu poncho e afundei-me na montanha de palha. Fiquei longe de todos os outros, que, desde logo e de modo unânime, se puseram a roncar.

Fiquei muito tempo estendido de costas, com os olhos abertos, a cara e os braços cobertos pela palha. A noite estava clara, fria e penetrante. Não havia Lua, mas as estrelas pareciam recém-molhadas pela chuva; e, por cima do sono cego de todos os outros, cintilavam só para mim no regaço do céu. Depois adormeci. Despertei de súbito porque algo se aproximava de mim, um corpo desconhecido movia-se debaixo da palha e acercava-se do meu. Tive medo. Aquela coisa ignota encostava-se lentamente. Sentia quebrarem-se os filamentos da palha, esmagados pela forma desconhecida que avançava. Todo o meu corpo estava alerta, à espera. Devia talvez erguer-me ou gritar. Fiquei imóvel. Ouvia uma respiração muito próxima da minha cabeça.

De repente avançou uma mão para mim, uma mão grande, trabalhadora, mas mão de mulher. Percorreu-me a fronte, os olhos, todo o rosto, com doçura. Depois, uma boca ávida colou-se à minha, e senti, ao longo de todo o corpo, até aos pés, um corpo de mulher que se apertava contra mim. Pouco a pouco o meu temor transformou-se em prazer intenso. A minha mão tacteou uma cabeleira com tranças, uma fronte lisa, uns olhos de pálpebras cerradas, suaves como borboletas. A minha mão continuou a procurar e toquei em dois seios, grandes e firmes, umas largas e redondas nádegas, umas pernas que me enlaçavam, e afundei os dedos num púbis como musgo das montanhas. Nem uma palavra saía nem saiu daquela boca anónima.

É difícil fazer amor sem produzir ruído numa montanha de palha, perfurada por sete ou oito homens mais, homens adormecidos que por nada do mundo deviam acordar. Mas a verdade é que tudo pôde ser feito, embora à custa de infinito cuidado. Um pouco mais tarde, também a desconhecida ficou bruscamente adormecida junto de mim. E eu, enfebrecido por aquela situação, comecei a aterrorizar-me. Em breve amanheceria, pensava, e os primeiros trabalhadores encontrariam a mulher nua na eira, estendida ao meu lado. Mas também acabei por adormecer. Ao despertar, estendi a mão, sobressaltado, e só encontrei um espaço morno, a sua morna ausência. Um pássaro começou logo a cantar e depois a sel.va inteira recheou-se de gorjeios. Soou uma apitadela de motor e homens e mulheres começaram a cirandar e a azafamar-se junto da eira e das suas lidas. O novo dia de debulha principiava.

Ao meio-dia almoçámos, reunidos em torno de umas largas tábuas. Eu olhava de soslaio enquanto comia, procurando entre as mulheres aquela que poderia ter sido a visitante nocturna. Mas umas eram demasiado velhas, outras demasiado magras, algumas eram jovenzinhas escorridas como sardinhas. Ora eu procurava uma mulher compacta, de bons peitos e traças compridas. De repente entrou uma senhora que trazia um pedaço de churrasco para o marido, um dos Hernández. Ela, sim, podia ser. Ao contemplá-la da outra ponta da mesa, julguei notar que aquela formosa mulher de grandes tranças me fitava com uma mirada rápida e me sorria com um sorriso ténue. E pareceu-me que tal sorriso se tornava maior e mais profundo, abrindo-se dentro do meu corpo.

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"




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