Rafael Chirbes

Espanha
27 Jun 1949 // 15 Ago 2015
Escritor

O Amor na Lama

- Esteban, o homem não poderia fazer grandes obras sem trabalhos pequenos; na maqueta do carpinteiro está todo o edifício do arquiteto, não há profissões grandes e pequenas: alegro-me que tenhas decidido ficar connosco na carpintaria, mas convém que te lembres disso. Não te esqueças de que Deus também se senta numa cadeira e come a uma mesa e dorme numa cama. Como qualquer um. Pode prescindir dos retábulos, das estátuas e dos livros que lhe dedicam, incluindo a Bíblia, mas não da cadeira, da mesa e da cama. — O meu tio esforçava-se muito. Queria que eu me sentisse bem na profissão. Que começasse a gostar dela. Acreditava que eu vivia como um fracasso a decisão de ter abandonado a Escola de Belas--Artes. Intuía certamente que eu precisava de desenvolver a minha autoestima. Mas tudo isso me parecia mera retórica — e era-o —, a verdade é que por essa altura já tinha começado a sair com Leonor e era ela quem eu amava, aprendia a gostar de mim através dela. Descobria o meu corpo em cada palmo do corpo dela, e o meu corpo ganhava valor porque lhe pertencia, era o seu complemento: acreditava que partilhávamos dois corpos que jamais poderiam separar-se e viver cada um por si. Aproveitávamos todos os tempos livres para estarmos juntos. Corria ao encontro dela quando terminava o trabalho na oficina. O meu pai: pode saber-se aonde vais com tanta pressa? Refugiávamo-nos na última fila do cinema de Misent (entrávamos já depois de iniciada a sessão, com as luzes apagadas, para que ninguém nos reconhecesse), fedíamos nas dunas, alugávamos quartos em pensões de marinheiros e putas. Levei-a ao pântano, e o seu corpo foi o único que não parecia roubar pureza ao lugar. O corpo de Leonor era belo coberto de lama, cheirando à podridão em que tínhamos rolado. Lavámo-nos junto ao manancial da lagoa, onde a água era mais limpa, recordo a excitação de pisar aquele terreno escorregadio como a pele de um réptil, o contacto com as plantas que flutuavam na água e nos roçavam a pele numa branda carícia, filamentos verdes que se colavam àquela carne branca, dando-lhe o aspeto de um corpo ferido que suplicava ternura, o leve odor a limos e a água estagnada. Os louvores ao torno e à serra que o meu tio se esforçava por cantar pareciam-me tão inúteis como as queixas do meu pai. A água fresca da mentira, tão fácil de beber. A verdade era aquela carne entre as minhas mãos, a saliva, os dentes que se cravavam no meu pescoço, entre gemidos, o corpo húmido e pegajoso que eu abraçava sobre a lama. Eu não queria ficar na carpintaria; a verdade era que eu não sabia o que queria.

Rafael Chirbes, in "Na Margem"




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