Rafael Chirbes

Espanha
27 Jun 1949 // 15 Ago 2015
Escritor

O Dinheiro Financia as Circunstâncias

Já dizia o filósofo: eu sou eu e as minhas circunstâncias. Muito bem dito. Pois é o dinheiro que te permite financiar as tuas circunstâncias; se falta o dinheiro, ficas sozinho com o teu vazio, mero invólucro sem circunstância que valha um tostão furado: abandona-te essa mão oportuna que te daria uma palmada nas costas para cuspires o fiapo de frango meio mastigado que nesse momento te entope a glote não, não o digo por ti, Liliana, como podes pensar uma coisas dessas, estou a falar em termos gerais, bem sei que tu nunca me abandonarias); se tens dinheiro, pelo contrário, podes comprar companhia, um enfermeiro, uma enfermeira. Podes pagar a uma pedicura que te corte as unhas dos pés — uma tarefa que se te torna cada vez mais esgotante — e as lime para que não se dobrem e se cravem na carne, uma profissional hábil e cuidadosa que te extraia os calos e te desinfete essas perigosas feridas na planta do pé que a hiperglicemia ameaça tornar crónicas e que, se perdurarem e alastrarem, podem gangrenar e obrigar à amputação do membro; tendo dinheiro, podes dar-te ao luxo de contratar um massagista, um cabeleireiro que te corte o cabelo e te barbeie na cama, um farmacêutico que te administre os calmantes mais eficazes para chegares ao céu antes da hora, para ouvires os sinos celestiais e veres as suaves asas dos anjos (sabias que numa igreja de uma aldeia vizinha se venera uma pluma do arcanjo São Miguel?), ou uma bela rapariga que te bata uma pívia (perdoa a crueza da linguagem, Liliana). Tudo isto numa confortável vivenda, ou numa clínica em Lucerna, num quarto cheio de luz com vista para um lago, para prados verdes onde pastam vaquinhas Milka, com as neves do Kilimanjaro ao fundo, e tu estendido num macio colchão de viscolátex (é assim que se diz?), sobre o qual agonizas como quem toma o chá das cinco se fores inglês, ou uma imperial e um prato de calamares à romana se fores da minha terra, e toda a cena representada à temperatura ideal, controlada pelo climatizador. Juntamente com o último comprimido dão-te uma taça de champanhe.

Rafael Chirbes, in "Na Margem"




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