Thomas Bernhard

Austria
9 Fev 1931 // 12 Fev 1989
Escritor

O Espírito Negativo dos Filósofos

Ficam reduzidos a uma única frase bem sucedida os nossos grandes filósofos, os nossos maiores poetas, dizia ele, é essa a verdade, lembramo-nos muitas vezes apenas daquilo a que se chama uma tonalidade filosófica e mais nada, dizia ele, pensei. Estudamos uma obra grandiosa, a obra de Kant por exemplo, e essa obra fica, com o correr do tempo, reduzida à pequena cabeça de prussiano oriental, que é a de Kant, e a um universo inteiramente vago, feito de noite e de névoa, que vai dar à mesma incapacidade de todos os outros, dizia ele, pensei, Pretendia ser um universo de grandiosidade, e dele não restou mais do que um pormenor risível, assim dizia ele, pensei, e assim acontece com tudo. Aquilo a que chamamos grandeza não passa, afinal, de algo que apenas nos comove por provocar o riso e a compaixão. O próprio Shakespeare confrange-nos com o seu ridículo se tivermos um momento de lucidez, dizia ele, pensei. Já há muito que os deuses figuram nas nossas canecas de cerveja adornados apenas duma barba, dizia ele, pensei. Só o imbecil é que venera, dizia ele, pensei. O chamado homem de espírito consome-se a produzir uma obra que ele considera digna de marcar uma época, e no fundo mais não faz do que tornar-se ridículo, quer se chame Schopenhauer ou Nietzsche, é indiferente, quer tenha sido Kleist ou Voltaire, tudo o que vemos é um homem que nos faz sentir compaixão, um homem que fez mau uso da sua cabeça e que afinal se esforçou ad absurdum. Que foi submergido e ultrapassado pela história.
Os grandes pensadores foram por nós encerrados nas nossas bibliotecas, e de lá nos fitam, condenados para sempre ao ridículo, dizia ele, pensei. Dia e noite escuto o lamento dos grandes pensadores que fechámos nas nossas bibliotecas, essas ridículas sumidades de espírito, como cabeças mirradas dentro de uma vitrina, assim dizia ele, pensei. Toda essa gente profanou a natureza, dizia ele, cometeu o crime maior contra o espírito, e por isso são punidos por nós e encerrados para sempre nas nossas bibliotecas. Porque morrem sufocados nas nossas bibliotecas, essa é que é a verdade. As nossas bibliotecas são como que presídios em que encerrámos as nossas sumidades de espírito, o Kant numa cela de isolamento, como é natural, tal como Nietzsche, tal como Schopenhauer, como Pascal, como Voltaire, como Montaigne, as figuras mais insignes em celas isoladas, todos os outros em celas colectivas, mas todos ali metidos para todo o sempre, meu caro, para toda a eternidade até ao infinito dos tempos, eis a grande verdade. E infeliz daquele que, condenado por ter cometido o crime maior, tente a evasão e consiga fugir, porque logo o desgraçam e o lançam no ridículo, essa é que é a verdade. A humanidade sabe proteger-se de todos os chamados grandes de espírito, dizia ele, pensei. O espírito, onde quer que surja, é logo dominado e aprisionado, e, como é natural, logo lhe apõem o carimbo de espírito negativo, dizia ele, pensava eu.

Thomas Bernhard, in 'O Náufrago'




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