Carlos Castán

Espanha
n. 1960
Escritor

O Exercício de Viver

Se o exercício de viver consiste maioritariamente em se ir atraiçoando um por um os sonhos que animaram os nossos anos de infância e juventude, então cada pessoa é o resultado exato de um bom punhado de traições. Às vezes centenas. Traem-se os sonhos mais puros e traem-se também os pesadelos. Por erro humano, fugimos de tempestades sem nos apercebermos de que eram tão nossas e estavam tão mergulhadas na nossa própria medula que sem elas não poderíamos existir. Dizemos, salva-me; dizemos, a ti já não quererei cravar facas nas pernas, não te farei mal, não desejarei ver a tua expressão de dor em nenhum espelho, amar-te-ei de outro modo, adorar-te-ei a partir de um ser que não existe, chamarei suplício ao meu passado, chamar-lhe-ei calvário até chegar a ti. Dir-te-ei que és suave como sonho o céu e que não me importo de fechar os olhos a tudo para sempre se souber que depois irás beijar-me as pálpebras. Não serei eu. Lançarei pazadas e mais pazadas de terra sobre o monstro. Aproximar-me-ei o mais possível do nada, de um caixão sem morto, de uma catedral vazia. Comprar-te-ei flores.

Não pode ser muito difícil porque nada é o que somos em definitivo, chegada a hora de arrancar a máscara: a lista das coisas por fazer escrita num caderno, toda essa legião inumerável de flechas que não chegaram a ser disparados do arco relacionadas com as que se perderam onde a vista não alcança. Um pujante ramo de formosas traições, grandes como sóis. E esse ramo nada mais é do que tudo o que teríamos de oferecer um ao outro ao fazer promessas de amor, se amor fosse a palavra. O resto não é verdade. Esse esquálido ramalhete e nada mais.

Carlos Castán, in 'Má Luz'




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