Jean-Arthur Rimbaud

França
20 Out 1854 // 10 Nov 1891
Poeta

O Tédio Já não é o Meu Amor

O tédio já não é o meu amor. As raivas, os deboches, a loucura, dos quais sei todos os ímpetos e desastres — ei-lo alijado todo o meu fardo. Apreciemos sem vertigem a extensão da minha inocência.
Já não seria capaz de pedir o reconforto de uma bastonada. Não me creio embarcado para uma boda com Jesus Cristo por sogro.
Não sou prisioneiro da minha razão. Disse: Deus. Quero a liberdade na salvação: como buscá-la? Os gostos frívolos deixaram-me. Já não necessito de devoção nem de amor divino. Não choro o século dos corações sensíveis. Cada um tem a sua razão, desprezo e caridade: retenho o meu lugar no cimo dessa angélica escada de bom senso.
Quanto à felicidade estabelecida, doméstica ou não... não, não posso. Sou demasiado dissipado, demasiado fraco. A vida floresce pelo trabalho, velha verdade: eu, a minha vida não é pesada que baste, levanta voo e paira muito acima da acção, esse caro ponto do mundo.

Jean-Arthur Rimbaud, in 'Obra Completa'




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