Pedro Chagas Freitas

Portugal
n. 25 Set 1979
Escritor

O Teu Céu

É em vida que tens o teu céu. Mas não é um céu prometido. Um céu prometido é um céu precavido, um céu prevenido – um céu invertido. O que já sabes que vai ser céu é um martírio. Se sabes que vai ser céu: então é porque não é céu. És tu que, todos os dias, tens de agarrar nas tuas perninhas e no monte de antíteses de que és feito. És tu que tens de rezar pelo teu céu. Mas rezar não é de joelhos. Rezar nem sequer é cruzar os dedos e olhar para o céu à espera de que de lá caia alguma coisa. O mais inusitado que podes esperar que caia do céu são perdigotos de quem, como tu, pensa que rezar é dizer meia dúzia de palavras com os joelhos dobrados e as mãos unidas em forma de impotência. Mas rezar não é nada disso. Vou-te explicar o que é rezar. Oremos, irmão.

Rezar não é ajoelhar nem é falar nem é esperar. Rezar é lutar. Não é por acaso que depois de morrer alguém de quem se gosta se faz o luto. Luto. Ouve bem, lê bem: sente bem. Luto. Luto. Luto de lutar. Porque depois de te morrer quem amas ou simplesmente gostas tens de lutar. Lutar como um cão, como um boi ou como uma vaca. Lutar como todos os animais do mundo lutam para sobreviverem por sobre a morte: por antes da morte. Lutar. Rezar é lutar, mexer, crer: querer. Lutar é acreditar. Mas fazer alguma coisa com esse acreditar. Acreditar de joelhos é parar. E parar é morrer. E morrer é, não tenhas ilusões bacocas, estar morto. Se queres ir para o céu depois de estares morto é porque já estás morto.

Pedro Chagas Freitas, in 'Eu Sou Deus'




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