Claudio Magris

Itália
n. 10 Abr 1939
Escritor

Os Banqueiros e o Diabo

O instantâneo é um ecrã de televisão, graças ao qual finalmente compreendo como é que tantos bancos podem ter sido tão imprevidentes e caminhado alegremente para a ruína. O programa, em boa verdade, não se foca na grandeza e na miséria do sistema bancário, mas antes em patetices como o satanismo e os seus cultos e adeptos, mais ou menos esotéricos, lixo acerca do qual não vale a pena falar, porque pertence àquele tipo de coisas que — diz um provérbio vienense — não merecem sequer ser ignoradas, pois ignorá-las é já muito, arriscando que se lhes dê uma importância desproporcionada. O mistério — das coisas últimas e das coisas de todos os dias, do universo físico e do universo mental, das interrogações metafísicas e das ambiguidades da vida e do nosso coração — nada a tem a partilhar com as palhaçadas falsamente hierátlcas quem escurece a sala até que, sem nada ver, acredita que lá esteja escondido um qualquer fantasma tenebroso. O verdadeiro mistério religioso, diz Chesterton, situa-se sob uma luz límpida e concreta, apresenta-se com clareza na sua complexidade.

Os presumíveis iniciados nas trevas são aldrabões ou aldrabados ou ambos. Os parapsicólogos e os ocultistas que se gabam de realizar milagres com forças paranormais defendem-se bem, no medo de serem desmascarados, do desafio de Silvan, o grande prestidigitador, competente e especialista em truques incríveis, que os convidava a fazer as suas magias na sua presença. Infelizmente, Silvan não tinha a autoridade do papa Sisto V, sobre o qual se conta que, ao ter conhecimento do supersticioso culto de um crucifixo que teria exsudado sangue, se dirigiu com grande pompa e circunstância até ao lugar da imagem, que deixara de ser corretamente venerada para ser profanada pela idolatria, se ajoelhou e disse: «Como Cristo te adoro», e que, ao levantar-se, terá acrescentado «e como madeira te despedaço», dando -lhe depois uma valente pancada que parece ter trazido à luz do dia uma esponja ensopada em sangue.
No programa televisivo fala-se, com insistência - naturalmente sem mencionar nomes, o esoterismo requer segredo - de importantíssimos banqueiros que participariam em ritos satânicos, missas obscuras, liturgias diabólicas e assim por diante, talvez parodiando cultos de outras civilizações, que, no seu contexto, fazem sentido, mas, reciclados noutra parte qualquer, ficam desvirtuados, tal como certos objetos sacros reduzidos a bibelôs nas casas dos novos-ricos. Até há poucas noites, acreditava que os banqueiros se ocupavam de finanças; a maior parte deles honestamente e um ou outro, como acontece nas melhores famílias, fraudulentamente. É certo que se, pelo contrário, se dedicam a essas diaboliquices patetas, compreende-se que até o principal trapaceiro de meia-tigela o seja às claras. Se o principal responsável pelas burlas sofridas por muitos de nós é aquele mesmo Satanás de banda desenhada, temo sinceramente que não haja esperança para nós, aqueles que fazem poupanças, pois não me parece que ele seja solvente.

(1 de março de 2004)

Claudio Magris, in 'Instantâneos'




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