Pablo Neruda

Chile
12 Jul 1904 // 23 Set 1973
Poeta [Nobel 1971]

Os Deuses Reclinados

... Por todos os lados as estátuas de Buda, de Lorde Buda... As severas, verticais, carcomidas estátuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolução como se o ar as desgastasse... Crescem-lhes nas faces, nas pregas das túnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas máculas: fungos, porosidades, vestígios excrementícios da selva... Ou então as jacentes, as imensas jacentes, as estátuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, pálidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante... Adormecidas ou não adormecidas, estão ali há cem anos, mil anos, mil vezes mil anos... Mas são suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora... E aquele sorriso de suavíssima pedra, aquela majestade imponderável, mas feita de pedra dura, perpétua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?... Passaram as camponesas que fugiam, os homens do incêndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores...

E manteve-se no seu lugar a estátua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na túnica de pedra, com o olhar perdido e não obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma também humana, de alguma forma ou de alguma contradição estatuária, sendo e não sendo deus, sendo e não sendo pedra, sob o grasnar das aves negras, entre os esvoaçar das aves vermelhas, das aves da selva... Pensamos, de algum modo, nos terríveis Cristos espanhóis que herdámos com chagas e tudo, com pústulas e tudo, com cicatrizes e tudo, com aquele odor a vela, a humidade, a quarto fechado que têm as igrejas... Aqueles Cristos também duvidaram entre ser homens e deuses... Para os fazer homens, para os aproximar mais dos que sofrem, das parturientes e dos decapitados, dos paralíticos e dos avaros, da gente de igrejas e da que rodeia as igrejas, para os tornar humanos, os estatuários dotaram-nos com horripilantes chagas, até que tudo aquilo se transformou na religião do suplício, no peca e padece, no não pecas e padeces, no vive e sofre, sem que nenhuma escapatória te livrasse...

Aqui não, aqui a paz chegou à pedra... Os estatuários revoltaram-se contra os cânones da dor e estes Budas colossais, com pés de deuses gigantescos, têm no rosto um sorriso de pedra que é tranquilamente humano, sem tamanho sofrimento... E deles evola-se um odor não a aposento morto, não a sacristia e teias de aranha, mas a espaço vegetal, a brisas que de súbito ficam ciclónicas, com penas, folhas, pólen da selva infinita...

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"




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