Eduardo Lourenço

Portugal
n. 23 Mai 1923
Filósofo / Ensaísta Professor

Pobres com Mentalidade de Ricos

Há algumas semanas, um engenheiro, responsável e responsabilizado na liquidação frutuosa dos erros dos outros, resumiu numa síntese insuperável a essência da realidade portuguesa: somos um povo de pobres com mentalidade de ricos. Se tivesse acrescentado qualquer coisa como «ricos pobres», ou ricos imaginários, teria resumido oitocentos anos de história pátria e dado uma última demão no diagnóstico célebre da nossa «intrínseca loucura» lavrado por Oliveira Martins. O comportamento descrito pelo lúcido engenheiro é tão orgânico que se tornou invisível, como tudo quanto é normal. Apontá-lo é um insulto à nossa celebrada maneira de estar no mundo, que é, naturalmente, a melhor do mundo, por ser nossa e por não podermos conceber outra.

Empiricamente, o povo português é um povo trabalhador e foi durante séculos um povo literalmente morto de trabalho. Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não-trabalho e parasitária dessa atroz e maciça «morte de trabalho» dos outros. Não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal de eleição, nós descobrimos colectivamente a maneira de refinar uma herança ancestral transferindo para o preto essa penosa obrigação. É mesmo essa a autêntica essência dos Descobrimentos, o resto, embora imenso, são adjacências. Hoje, com o suspeito «illitchismo» a servir de farol progressista, esta colectiva fuga ao trabalho tem ares de profecia à rebours, serve de conforto aos herdeiros da fabulosa exploração do suor do próximo que tão lírica e contemplativa disposição lusa supunha e supôs, e sob outras formas, continua a supor. Na realidade, constituiu e constitui a trama da colectiva existência picara que por necessidade inventámos tornando-nos esses pobres com mentalidade de ricos a que o nosso engenheiro se refere.

Seria de uma provocação sem alcance exaltar o trabalho em si ou a ética do trabalho (dos outros), independentemente do contexto social onde se insere, tal como a ideologia puritana do liberalismo a cultivou. Mas mais grave ainda é esquecer o que há de positivo nessa apologia que na origem traz o selo de uma democraticidade realista oposta ao divino privilégio de não fazer nada e de se glorificar com isso. O tardio rebate do marquês de Pombal, que observara nações com classes dirigentes inseridas no processo de criação de riqueza, o fortalecimento, por exemplo inglês interposto, do sentimento de honorabilidade de que o Porto liberal será entre nós o símbolo, não puderam alterar substancialmente a tradição parasitária e picara de uma nação sem ricos que justificassem (no contexto da época) sê-lo, e que só podiam dar, ao resto do povo, o exemplo, ao mesmo tempo fascinante e insultuoso, de um escândalo com foros de milagre a copiar e imitar como se podia. Dos caldos de portaria ao burocratismo apopléctico do século xx corre um fio que, por escondido, não é menos grosso e grávido de consequências.

Colectiva e individualmente, os Portugueses habituaram-se a um estatuto de privilégio sem relação alguma com a capacidade de trabalho e inovação que o possa justificar, não porque não disponham de qualidades de inteligência ou habilidade técnica anáIoga à de outra gente por esse mundo, mas porque durante séculos estiveram inseridos numa estrutura em que não só o privilégio não tinha relação alguma com o mundo do trabalho mas era a consagração do afastamento dele.

Eduardo Lourenço, in 'O Labirinto da Saudade (1978)'




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