José Luís Nunes Martins

Portugal
n. 14 Mar 1971
Filósofo

Preciso de Ti para Ser Eu

Ser quem sou passa por ser capaz de criar ligações ao outro, com o outro e para o outro. Só há pessoas porque há relações. A minha existência é constituída pelos caminhos que sonho, construo e percorro, ao lado de outras pessoas que, como eu, sonham, constroem e percorrem os seus caminhos. Vontades distintas, dinâmica comum. Seguimos, cada um pelos seus princípios, cada um para os seus fins.

O amor leva o ser do seu autor ao ser do que é amado. Amar é ser e ser é amar. Partilhar-se com o outro e com o mundo, num milagre de multiplicação em que quanto mais se dá, mais se tem para dar, mais se é.

Um pequeno erro na base leva a potenciais tragédias nas conclusões. Há quem parta do princípio que o amor é recíproco. Ora, essa ideia simples acaba por ser origem de enormes tragédias pessoais. O amor não é recíproco, é pessoal, nasce no mais íntimo da nossa identidade. Não é metade de nada, é um todo. Precisa do outro como fim, não como princípio.

Preciso de Ti para Ser Eu

O amor é bondade generosa. É dar o bem. Dar-se. Conseguir ser fonte de amor é o maior dos bens que se pode alcançar. Sonhar, criar e lutar pela felicidade do outro é, por si mesmo, a maior de todas as recompensas. Claro, muitos desistem assim que o primeiro espinho se crava na planta dos pés...

O valor de alguém não depende do que lhe dão ou tem, mas do que é. O outro pode inspirar-me, mas a minha felicidade passa pelo que sou capaz de lhe dar… e não pelo que posso ou quero receber.

Criamos relações, construímos pontes, para não sermos ilhas. A nossa verdadeira comunhão é mais profunda. As águas separam o mais evidente do que somos, mas o fundo é o mesmo, como se fossemos montes de uma mesma cordilheira e o mar tivesse inundado os vales.

O caminho de descoberta passa por se ser capaz de chegar ao íntimo… de si mesmo, do outro e do mundo. Por se dar conta de que, afinal, no fundo do ser, a nossa matriz é comum. Os outros são eus e eu sou o seu outro.

Não é bom estar só. A solidão anula o ser. O amor une o que é, na essência, da mesma natureza. Resulta da liberdade e responsabilidade absolutas. Implica a capacidade de criar uma vida sem intervalos.

Nenhum mal perdura no tempo, porque a destruição se destrói a si mesma. Só o bem é eterno. Porque se cria e renova a cada momento.

O que sou depende dos princípios que me movem e dos fins para os quais a minha vontade tende. Serei o que escolher ser dentro de um conjunto de determinações que me ultrapassam, mas que em ponto algum limitam a minha liberdade e a minha responsabilidade.

Vivemos uns com os outros, seguimos juntos no espaço e no tempo... escolhemos depois estar mais perto ou mais longe dos íntimos uns dos outros.

Ninguém nasce de si mesmo e o ser humano, sendo o mais perfeito ser terrestre, é também o mais carente. Precisamos muito uns dos outros.

Não é possível ser feliz sem os outros, menos ainda contra os outros.

A cada instante, tudo muda, mesmo quando toda a gente quer que continue na mesma. As decisões devem renovar-se a cada passo, o amor deve encontrar forma de se fazer real a cada dia, sob pena de passar, e nós, passando com ele… nos fazermos apenas passado.

Longe de fechar, o amor abre aquele que ama ao outro, tornando-o protagonista da criação. Cada um de nós está projetado para fora de si, para os outros, para este mundo e para o céu. A nossa dignidade é tanto maior quanto mais aberto estiver o nosso coração... para dar.

Preciso do infinito para ser eu.


José Luís Nunes Martins, in 'Amor, Silêncios e Tempestades'
[Autoria da Ilustração: Carlos Ribeiro]




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