David Mourão-Ferreira

Portugal
24 Fev 1927 // 16 Jun 1996
Poeta/Escritor

Privilégio do Tejo

Quantos serão entre os habitantes de Lisboa, quantos mesmo entre os lisboetas de gema, os que ao menos uma vez por dia sentirão uma espécie de reconhecimento, já não direi sequer de orgulho, em relação ao rio que ininterruptamente contorna e enlaça um dos flancos — aliás o mais venerável, e o mais vulnerável — da cidade onde vivem ou de onde são naturais? Falo apenas dos que pensem no Tejo; ou dos que sintam, dia a dia, a sua presença viva. Quanto àqueles que o vêem, quotidianamente, pelo acaso dos seus domicílios ou exigências dos seus mesteres, tão-pouco haverão de constituir apreciável percentagem. Mas, mesmo entre estes, quais e quantos os que terão para ele, em cada período de vinte e quatro horas, um pensamento agradecido, um sentimento de agrado, um vislumbre de apreço, um ligeiro aceno de filial ternura?

Não; não creio que sejam muitos. E, no entanto, nada mais injusto, porque o Tejo tem sido sempre, numa cidade tão feminina como Lisboa — ora mãe ora madrasta dos que em seus braços se confiam —, o princípio activo, o elemento gerador, o ente paterno por excelência. Decerto que se trata de um pai vulnerável, andarilho, que vem calcorreando caminhos desde o interior das Espanhas e que depois pouco se demora em casa, ansioso por se perder nas mais vastas estradas do mundo. Mas a verdade é que só aqui, em Lisboa, encontra e elege o único lar que por mais tempo consegue ter, a companheira ideal que melhor tem sabido fecundar e diante de cujo corpo se exibe, ele próprio, no apogeu da sua generosa pujança, já com varonis prosápias de ser aquele Mar em que, não tarda nada, virá a converter-se...

Vendo bem, talvez Lisboa seja, para o Tejo, pouco mais que o repouso do guerreiro. Daí que nem ela nem os seus filhos lho perdoem. (Os enteados, então, ainda menos. O Freud poderia explicar isto...) Mas que seria ela, no fim de contas, e que seriam eles, os filhos e os enteados, sem os caprichos e o humor vagabundo desse castelhano dos arredores de Toledo, que longamente hesita antes de se naturalizar português e logo a seguir já sonha com um destino de cidadão do Universo? O que importa é a paragem; não a passagem. Ou o privilégio, que sempre tem sido seu, de parar enquanto passa, de passar enquanto pára.
(1989)

David Mourão-Ferreira, in 'Terraço Aberto'




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