Florbela Espanca

Portugal
8 Dez 1894 // 8 Dez 1930
Poetisa

Quer-te Muito a Tua Mulherzinha

Recebi ontem à noite o telegrama que mandaste da Foz. Desejo que tivesses encontrado tudo bem na nossa casinha. Espero com ansiedade a primeira cartinha tua que já cá devia estar. Estou a escrever-te sentada a uma janela com o papel em cima dum livro e o tinteiro no chão; é 1 hora e meia, a hora de ir até às galinhas a ver se já havia algum ovo.

Há quanto tempo isso foi! Escreve para cá só até ao dia 23 ou 24 porque dia 26 pela manhã partimos para Vila Viçosa. O carnaval é dia 8 e já vejo que para minha desgraça o vou passar no covil enjaulada como as feras perigosas. Pouca sorte a da pobre Bela! Não posso ainda hoje falar com o advogado nem amanhã que é domingo, de forma que só segunda-feira te poderei dizer qualquer coisa a esse respeito. Há só um comboio dia sim dia não para Lisboa de forma que não estranhes nem te inquietes por alguma pequena demora na correspondência.

Quer-te Muito a Tua Mulherzinha - Florbela Espanca

Aí vai um belo soneto que as saudades tuas me trouxeram ontem; só quando estou triste sei fazer versos com jeito como esses. Provavelmente não gostas... Disse-me ontem a Henriqueta que o Apeles tinha dito sabendo que eu vinha: "Manda-la-á ele para se descartar dela?..." Como te conhecem pouco, meu pequenino! Que valente puxão d'orelhas ele merece por esta frase, mais tarde! Sempre aquele senhor irmão me saiu um fúfio!

Soidades à Maria, à Miss e à Talassa. Parece-me ainda que sonho e logo que desperte me vejo ao pé de ti. Quer-te muito, muito a tua mulherzinha querida Bela.

PS (canto superior esquerdo da carta).: Beijinhos para o pirilau e desejo que tenha muito juízo, ó viu?...


Caravelas...

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!...
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar Morto,
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao mar,
As que eu lancei à vida e não voltaram!

Florbela Espanca, in 'Carta a António Guimarães (1921)'




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