António Lobo Antunes

Portugal
n. 1 Set 1942
Escritor/Psiquiatra

Regresso Sempre a Ti

Meu amor
A verdade, a trágica verdade, é que cada vez gosto mais de ti, com aquela mansa fúria de que fala o poeta. Desde que te conheço que não tenho olhos para nenhuma outra mulher, milagre que só tu poderias fazer, tornar realidade e alegria. Regresso sempre a ti como um comboio de corda na sua calha circular. E agora, que tenho estado doente e piegas, a saudade de ti aumentou terrivelmente mais, catastroficamente mais, deixando-me a passear de mãos atrás das costas no teu retrato horas seguidas. Até ao fim do mundo.
Tens estudado? Estás mais gorda? E a Canhica? Os olhos continuam azuis? (Preocupa-me tremendamente esses pormenores...). Daqui a dois anos vou levá-la ao ballet, e dentro de vinte está casada com um premier danseur, cabeludo, oblíquo e lânguido...
O que me tem custado a passar este longo e interminável mês de Fevereiro, por altíssimo azar bissexto! E no dia 6 de Março só se completam 14 meses de infernal separação!!! Quero ir para o Puto!
Deve estar entretanto a chegar o dinheiro do H., e dentro em breve espero poder mandar mais uns 10 contos e mais garrafas ou um pacote de livros lidos e relidos... Para as prateleiras, para o carro, para o que quiseres...
Meu adorado amor gosto tanto de ti tanto tanto tanto!
António

António Lobo Antunes, in 'Cartas da Guerra (26 Fev 1972)'




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